Cansado de ver pseudociência falando de mecânica quântica?

Energia, vibrações, pulseiras quânticas... 

Não existe nada mais frustante do que ver a mecânica quântica, uma das mais belas e complexas teorias já criadas, sendo usada para a pseudociência e o misticismo.
No Brasil esse movimento vem ganhando força desde 1970 e parece não ter fim: "energia" e "vibrações" são termos frequentes, pulseirinhas quânticas, consciência quântica cósmica, e por aí vai...

Mas o livro "Pura Picaretagem", do cientista Daniel Bezerra e o jornalista Carlos Orsi vem como um bálsamo para quem deseja desmentir esse movimento e levar a verdade aos mais prejudicados, que são as pessoas que acreditam nessas histórias, enganadas pela própria ignorância e pela esperteza de alguns.


Então, depois de um tempo sem escrever aqui, eu trago essa que é uma ótima opção de leitura. A entrevista com um dos autores, Carlos Orsi, é bem esclarecedora e vale a pena ler um trecho do livro, no final do artigo (e acredite, eu não estou fazendo merchandising, é só uma dica de leitura mesmo). Outra dica é o livro O Mundo Assombrado pelos Demônios, uma referência no assunto, escrito por Carl Sagan, que dispensa apresentações. Curta e compartilhe esse artigo no Facebook clicando aqui.

O que a mecânica quântica tem de especial para cair nas graças de gurus espiritualistas?
 - Ainda na década de 1920, já havia físicos que alertavam para a provável apropriação futura da mecânica quântica pelo misticismo. Há três fatores que fazem do mundo quântico uma presa atraente nesse sentido. O primeiro é o princípio da incerteza, que diz que algumas propriedades das partículas não podem ser medidas com precisão absoluta. Não é difícil apresentar essa constatação como um sinal de que a ciência “não pode explicar tudo”, criando uma lacuna para alternativas espirituais. Outro ponto é o chamado “problema da medição”, o fato de que certas propriedades das partículas subatômicas só parecem assumir um valor definido quando são medidas. Se você supuser que a medição precisa ser feita por um agente consciente, isso abre todo o campo da chamada “consciência quântica”, a ideia de que o mundo é controlado pelos pensamentos das pessoas, ou dos anjos, ou de Deus. Na verdade, a “medição”, pode ser qualquer interação com outro corpo ou partícula: dois elétrons que se repelem estão “medindo” um ao outro, por exemplo. O terceiro ponto é o emaranhamento quântico, que diz que duas partículas podem continuar a interagir mesmo se separadas por distâncias enormes, o que dá margem à ideia de que “tudo está interligado”. O fato, no entanto, é que o emaranhamento é um estado extremamente delicado, que pode ser destruído pela menor perturbação. Ao contrário do que alguns astrólogos, por exemplo, gostariam de acreditar, não há a menor chance de o cérebro de um capricorniano estar “quanticamente emaranhado” com o planeta Saturno.

Quais são os principais sinais da picaretagem quântica?

 - O primeiro e maior sinal de alerta é o uso descontextualizado de termos que têm um significado técnico muito preciso, como “frequência” ou “energia”, e a mistura desse jargão científico com um discurso subjetivo. Por exemplo, um tempo atrás ouvi uma pessoa no rádio dizendo que o corpo humano sente a diferença de “energia vibracional” entre uma cenoura comum e uma cenoura orgânica, “rejeita” a primeira, e por isso não adoece. O que dá para dizer, do ponto de vista quântico, é que cada cenoura tem uma onda associada, e essas ondas são diferentes. O que a pessoa parecia querer dizer é que a onda associada à cenoura orgânica é “do bem”, e a outra é “do mal”, mas isso não faz sentido: partículas subatômicas não têm inclinação moral. O quantum não é sensível às intenções humanas. Isso fica claro em experimentos. Se é verdade que algumas propriedades das partículas parecem só surgir quando são medidas, também é verdade que é impossível escolher o resultado da medição: se a equação diz que a partícula tem 60% de chance de apresentar um certo estado e 40% de chance de apresentar outro, o resultado da medição é ditado por essas probabilidades, não pela minha vontade. A descontextualização, por sua vez, leva ao segundo principal sinal, que é a ideia de que as intenções humanas têm controle sobre o mundo. Isso é verdade em vários contextos, como o social ou o político, mas não no físico. Mentalização não mata bactérias. Para isso você precisa de antibióticos.

Além de ilusões, a picaretagem quântica pode trazer também riscos?
 - Há o risco de perda material, com as pessoas gastando dinheiro em produtos, como pulseirinhas “quânticas”, que não servem para nada. E há um risco ainda maior para a saúde. Pessoas abandonam tratamentos comprovados para se submeterem a terapias fajutas com magnetos, luzes coloridas, aromas, todas mascaradas por um jargão “quântico”. Isso custa vidas. Há várias aplicações da mecânica quântica na medicina – a radioterapia e a tomografia são exemplos –, mas essas aplicações não têm nada a ver com a ideia de que as intenções humanas controlam o universo. O câncer não desaparece quando você harmoniza seus pensamentos com o fluxo cósmico, seja lá o que isso for. Essa também é uma doutrina que estimula, no fim, um sentimento forte de culpa: se o câncer me derrota, a culpa é minha, porque não consegui manter minhas “energias” focadas. É justo fazer pessoas que já estão sofrendo acreditarem em algo assim?

Que tipo de leitor você tinha em mente quando decidiram escrever o livro?
 - A pessoa curiosa que ouviu o “galo quântico” cantar mas não sabe bem onde. No fundo, meu leitor ideal sou eu mesmo, com 16 anos de idade, época em que o misticismo quântico começava a ganhar adeptos no Brasil: por algum tempo acreditei que, se me concentrasse bastante, conseguiria passar através das árvores na calçada! Porque, pelo princípio da incerteza, as partículas que formam a árvore não estão exatamente ali, e a maior parte dos átomos é feita de espaço vazio… Pura picaretagem teria sido um bálsamo para mim naquela época. Ou um balde de água fria – muito necessário, aliás.

Você não acha que este livro pode ser apenas “pregação para convertidos”, como se costuma dizer do livro Deus, um delírio, de Richard Dawkins?
 - É um risco, mas espero que não. Mantendo o paralelo com Dawkins, ele costuma dizer que recebe muitos depoimentos de gente que sentia que havia algo errado com a religião, com a ideia de Deus, mas que não conseguia pôr o dedo no ponto crítico – e que seu livro permitiu isso, pôr o problema em foco, materializá-lo. Gostaria que Pura picaretagem pudesse fazer isso por alguém, ajudar uma pessoa que está imersa em misticismo quântico, mas sente que há algo errado, a dar um rumo a sua intuição. Para além disso, no entanto, o livro também tem uma função preventiva: espero que quem vier a lê-lo fique vacinado contra os apelos quânticos fajutos que, certamente, surgirão em sua vida. ♦


Trecho
A Mecânica Quântica diz que tudo o que existe são probabilidades, o que significa que nada é impossível.

“Tudo o que existe são probabilidades” é uma interpretação possível da descrição quântica do Universo, mas de modo algum é a única interpretação levada a sério pelos cientistas. Além disso, é preciso ter em mente que as diferentes probabilidades dos fenômenos quânticos interferem entre si, tornando alguns resultados virtualmente inevitáveis, ao passo que outros passam a ser efetivamente impossíveis.

Exemplo: os físicos britânicos Brian Cox e Jeff Forshaw fizeram cálculos usando regras matemáticas da Mecânica Quântica, e concluíram que para observar um grão de areia se desmaterializar espontaneamente e reaparecer a apenas quatro centímetros de sua localização original seria preciso aguardar um tempo superior a dez vezes a idade atual do Universo. Portanto, uma pessoa não está realmente errada quando diz que um grão de areia – ou um diamante, ou uma Ferrari, ou um pinguim – sumir de repente e ressurgir espontaneamente em outro lugar é um evento impossível.


Informações do livro:
Pura picaretagem – Como livros de esoterismo e autoajuda distorcem a Ciência para te enganar. Saiba como não cair em armadilhas!
Daniel Bezerra e Carlos Orsi; Leya Brasil; 176 págs. | R$ 29,90

Para saber mais: UNESP
Cansado de ver pseudociência falando de mecânica quântica? Cansado de ver pseudociência falando de mecânica quântica? Reviewed by OTÁVIO JARDIM ÂNGELO on 22:01 Rating: 5

14 comentários

  1. Olá, Otávio!!!!

    E... como tem bestas, nesse mundo!!!!! Sei não!!!! Apesar do concurso da divulgação maciça pela rede, a maioria da população (talvez, não seja mais tanto assim) ainda dar crédito à esses pilantras e picaretas de plantão!!!!
    Mas, a verdade tarda... mas, virá à tona e permanecerá!!!!!
    Um abraço!!!!!

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    1. E nós somos um pouco responsáveis por falar sobre a ciência para eles. Grande abraço!

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  2. Após o término do ensino médio venho me interessando por matérias quânticas, e muitos sites que vejo estão mais interessados em associar religião. Qual livro você recomenda para um leigo no assunto, apenas com o básico que é oferecido no ensino médio? Obrigado!

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  3. Existem dezenas interpretações da física quântica, algumas determinísticas e outras não.Interpretações como a de Amit Goswami, que assumem a consciência, como o agente causal do colapso, são chamadas de subjetivistas, ou idealistas.Não existe nenhum experimento que demonstre que uma interpretação idealista seja errada, logo isso torna ela tão digna quanto qualquer outra.Não nos esqueçamos que o monismo materialista, é uma uma premissa metafísica, assim como o idealismo monista também é.Adotar uma interpretação determinística como verdade absoluta, não deixa de ser um tipo de fundamentalismo científico também.É interessante notar que muitos físicos ortodoxos, rejeitam o subjetivismo, mas aceitam a interpretação de muitos mundos, que talvez seja mais exótica e precise de mais "fé", para "engolir" do que a anterior.

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  4. Existem dezenas interpretações da física quântica, algumas determinísticas e outras não.Interpretações como a de Amit Goswami, que assumem a consciência, como o agente causal do colapso, são chamadas de subjetivistas, ou idealistas.Não existe nenhum experimento que demonstre que uma interpretação idealista seja errada, logo isso torna ela tão digna quanto qualquer outra.Não nos esqueçamos que o monismo materialista, é uma uma premissa metafísica, assim como o idealismo monista também é.Adotar uma interpretação determinística como verdade absoluta, não deixa de ser um tipo de fundamentalismo científico também.É interessante notar que muitos físicos ortodoxos, rejeitam o subjetivismo, mas aceitam a interpretação de muitos mundos, que talvez seja mais exótica e precise de mais "fé", para "engolir" do que a anterior.

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  5. Há tempos estou conseguindo, a duras penas, interpretar alguns fenômenos quânticos fazendo uso da mecânica comum. Newton foi gênio ao formular sua Mecânica Clássica, mas sempre acreditou que o burro "puxa" a carroça. Descobri algo simples: - estava brincando com os meus óculos... brincando de empurrar e puxar. Fiquei surpreso ao perceber que OS EMPURRAVA PARA CÁ ao invés de puxá-los. Minha pergunta no momento: "Isso é relativo?" - Mudei de ponto de vista e CONTINUEI EMPURRANDO PARA CÁ. Isso é absoluto!!! - Então a verdadeira Mecânica o pessoal ainda não conhece!!!

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  6. Não quero exagerar em meus comentários. Não é bom editar comentários constantemente. Para saber alguma coisa a mais sobre meu trabalho pode-se examinar alguns comentários meus nos blogs: hominis futurum - teoria m (sistema de busca) ou buscar netnature - teoria m. Nestes vocês verão como interpreto bilocação, flutuação quântica, não localidade e outros. Para a tentativa de explicação de tais eventos peguei carona com LEIBINITZ (as mônadas). O que me intriga nessa estória é que fui forçado a acreditar em mônadas... Isso é dose!!... Dose prá rinoceronte!!!...

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  7. Michael Shermer escreveu o livro CÉREBRO E CRENÇA. Nele ele relato que nossos cérebros são escravos das crenças. A maioria de nossos cérebros é programada para crer em algo, mesmo que seja numa besteira. Shermer fala também de crenças no mundo da ciência. Ele cita Galileu Galilei, que após criar seu telescópio começou a acreditar que o conhecido por Saturno seria um conjunto de 3 estrelas próximas entre si. É comum algum médico, mediante poucas curas inexplicáveis, criar teorias pseudocientíficas com base nisso. Enfim sinto ser difícil ser 100% racional.

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  8. Flutuação quântica explicada pela mecânica comum? Se pegarmos carona com o pensador LEIBINITZ? Ele lançou a hipótese da existência das MÔNADAS. Elas seriam as menores unidades, as formadoras das partículas e da energia em geral. Então energia pura seria um conjunto de mônadas em movimento. Mas se ocorre colisão entre duas ou mais mônadas? Isso é mecânica pura nos moldes de mecânica clássica. Assim temos um outro conceito de Física no qual a energia nunca perde a condição mecânica, mesmo sob aspecto de energia potencial. ISSO É MUITO ESTRANHO! Estou criando uma pseudociência? - O tempo dirá. -/-/- Vamos à flutuação quântica: - no vácuo surgem repentinamente partículas e logo elas desaparecem. São partículas virtuais. Elas surgem do nada? Um cérebro racional admite que do nada surja algo? Como explicar? - Algumas mônadas se encontram, esboçando uma partícula, Mas não há pressão externa suficiente para mantê-las coesas. Então a partícula é desfeita. Se estou certo, isso é mecânica clássica, uma mecânica comum. Mas... posso estar errado!...

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  9. Bem ou mal tenho conseguido explicação para fenômenos de mecânica quântica valendo-me de uma mecânica comum. Se estou no caminho certo várias frentes para uma outra tecnologia serão abertas. Espera-se uma tecnologia bem diferente destas que hoje conhecemos. Mas se estou seguindo pistas falsas, nada podemos esperar. Acredito que, um dia, a totalidade cósmica possa ser decifrada. Acho difícil uma teoria de tudo sem o conhecimento da dinâmica das forças. Essa dinâmica é simples demais: o cavalo precisa EMPURRAR o que há no peitoral para conseguir puxar.

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  10. Que dizer da dualidade onda/ partícula? Um elétron ora é onda, ora é partícula. Essa variação acontece muito quando ele está isolado, livre de orbital. Quando está no átomo, seu comportamento também não é tão previsível, mas parece bem comportado. Se certa quantidade de mônadas integram o elétron, elas precisam de pressão externa para manter o elétron íntegro. Num elétron isolado, as mônadas tendem a esparramar-se, Então o mesmo adquire muitas formas diferentes: alguma forma de cordão, forma de folha de extensa folha de papel de seda, alguma forma de bolacha e outras. Nessas formas delicadas ocorrem ondulações. Mas, se ele, em forma de cordão, se enrola? Já não é onda. Temos que encará-lo como partícula. Já que as mônadas tendem a espalhar-se, por pressão de energia externa insuficiente, à medida que se esparramam tornam-se distantes entre si. As mônadas se isolando umas das outras ficam sem forças para romper a barreira de energia externa (outrora insuficiente). Assim o elétron ameaça desfazer-se, mas se mantém coeso. Costumam admitir que o elétron é um pacote indivisível. Não acredito. Se assim fosse seu comportamento seria totalmente previsível. E não é assim. Seu comportamento é doido demais. -/-/- O que quero com isso? Outra Física?

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  11. Existe explicação para o holograma? Sabemos ser foto em superfície bidimensional com características tridimensionais. Partindo-se o holograma em pedaços, cada um deles fica com a gravura completa embora distorcida e semi-borrada. Como justificar? - Suponho uma foto formada por pontos A, B, C, D, E. O A está interagindo com outro A. B interligado a outro B. C com C. Assim por diante. Partindo-se o holograma em 4 partes, teremos um pedaço formado por A. Outro pedaço por B . Outro por todos os C. O último por D e E. Então a imagem dos pedaços não vai ter a mesma coloração do original. As imagens dos pedaços sai completa, mas com deficiências. Ao partir a foto os blocos de pontos interligados, cada um vai para um pedaço. Tenta-se explicar os fatos através de uma ginástica mental...

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  12. A principal faceta da lei da dinâmica das forças sugere que o burro precisa empurrar o que há na sua frente para poder puxar. Com os 23 anos de observação vou suspeitando que essa lei nunca é violada. Mas a Teoria da Relatividade nos sugere a VIAGEM NO TEMPO. Aí se entra no terreno da MÁGICA. - Mágica na ciência? Podemos acreditar em mágicas? Vamos sugerir que a tal viagem no tempo não existe. O que existe é a passagem de um universo para outro. Ao invés de viajar no tempo, penetramos num universo historicamente mais adiantado que o nosso... ou historicamente mais atrasado. Este é outro modo de encarar a relatividade de modo que a lei básica não é violada. Podemos admitir também universos com histórias diferentes.

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  13. Se viajarmos durante 60 segundos a uma velocidade de 240 mil quilômetros por segundo, nosso relógio vai acusar 36 segundos ao invés de 60. Houve alteração no tempo? - Talvez não. Acredito que o andamento mecânico do relógio foi alterado, No caso de relógio eletrônico o andamento da corrente se torna mais lenta. No relógio atômico os spins das partículas subatômicas são alterados. Então penso que o problema não é com o tempo, mas, sim de mecânica do cronômetro.

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