domingo, 9 de janeiro de 2011

Especial: Alberto Santos-Dumont, o verdadeiro inventor do avião.

Comentário: O jornal Correio Braziliense está fazendo uma série especial com pequenas biografias de cientistas e inventores brasileiros. O primeiro personagem dessa série é ninguem menos do que Santos-Dumont, o verdadeiro inventor do avião. 


(Paloma Oliveto do Correio Braziliense) Ainda garoto, sem nunca ter visto sequer um balão na vida, Alberto Santos-Dumont já sonhava com a construção de um navio que, igual aos pássaros, se embrenhasse pelas nuvens. A ideia fazia rir os adultos e os companheiros de meninice. Quando brincavam de “passarinho voa”, o pequeno Alberto era o alvo das gozações. Em volta da mesa, as crianças, uma a uma, perguntavam em voz alta: “Pombo voa? Galinha voa?” e, assim, sucessivamente. A cada questão, as demais tinham que levantar o dedo e responder. Até que algum gaiato viesse com a pegadinha: “Cachorro voa?”. Quem erguesse a mão pagava prenda.

“Meus companheiros não deixavam de piscar o olho e sorrir maliciosamente cada vez que perguntavam: ‘Homem voa?’... É que, no mesmo instante, eu erguia o meu dedo bem alto e respondia: ‘Voa ’, com entonação de certeza absoluta, e me recusava obstinadamente a pagar prenda”, relatou o inventor brasileiro no livro Os meus balões.
(CONTINUA...)

“Você se lembra, meu caro Alberto, do tempo em que brincávamos juntos de ‘passarinho voa’? A recordação dessa época veio-me ao espírito no dia em que chegou ao Rio a notícia do seu triunfo. O homem voa, meu caro! Você tinha razão em levantar o dedo, pois acaba de demonstrá-lo, voando por cima da Torre Eiffel. E tinha razão em não querer pagar a prenda.” O trecho é de uma carta de Pedro, com quem o menino Alberto havia devaneado sobre o navio que navegaria no céu.

A correspondência, arquivada na Biblioteca Nacional, emocionou o inventor, cuja infância foi passada na fazenda onde nasceu, em 20 de julho de 1873, em Minas Gerais. “O velho jogo está em moda em nossa casa mais do que nunca; mas, desde o 19 de outubro de 1901, nós lhe trocamos o nome e modificamos a regra: chamamo-lo agora o jogo do ‘Homem voa?’, e aquele que não levanta o dedo à chamada, paga prenda.”

Pedro nem se referia ao 14-bis, primeira aeronave movida a propulsão, que voaria sobre os céus de Paris, cinco anos depois. Mas ao balão número 6, que partiu de Saint’Cloud na direção à Torre Eiffel, contornou o monumento e regressou ao local de origem, completando uma rota de 11km. O feito rendeu a Santos-Dumont 100 mil francos, doados pelo empresário do petróleo Henry Deustche de La Muerthe, que lançou o desafio ao mundo. Na ocasião, as centenas de pessoas que se juntaram para testemunhar o voo não sabiam, mas, três meses antes, o dirigível já havia sobrevoado o Bairro de Puteaux, com sucesso.

Insistência
Até chegar lá, porém, foram muitos os testes. Alguns deles, fracassados. Como em 13 de julho, quando, a 200m de altitude, lutando contra o vento, o balão caiu sobre um castanheiro do barão Edmond de Rothschild. “Os hóspedes e o pessoal da casa acudiram, imaginando, muito naturalmente, que a aeronave deveria achar-se em pedaços e que eu próprio estava, sem dúvida, ferido”, relatou Dumont. Porém, a queda não rendeu ao inventor nem um arranhão. Já o balão “apresentava tãos poucos rasgões” (sic).

Ali pertinho morava a Princesa Isabel e seu marido, o Conde d’Eu. Quando soube do acidente, a princesa mandou levar um almoço ao conterrâneo, que, mais tarde, foi à casa dela contar com detalhes a história. Sem esconder a saudade que sentia do Brasil, a filha exilada de Dom Pedro II confessou: “Suas evoluções aéreas fazem-me recordar o voo dos nossos grandes pássaros do Brasil. Oxalá possa o senhor tirar do seu propulsor o partido que aqueles tiram das próprias asas, e triunfar, para a glória da nossa querida pátria”. Poucos dias depois, Santos-Dumont recebeu da princesa uma carta, acompanhada da medalhinha de São Benedito, protetor contra acidentes.

Mais conhecido no Brasil pela invenção do 14-bis, Santos-Dumont é autor de muitos outros inventos, como o relógio de pulso, que, embora executado por Louis Cartier, foi ideia do aviador. Ele pediu ao relojoeiro francês, seu amigo, para colocar alças no lugar da corrente para que controlasse com mais segurança o comando dos aviões quando estava no ar. Mas as engenhocas de Alberto começaram ainda na infância. “Ser-me-ia impossível dizer com que idade construí os meus primeiros papagaios de papel.” Também menino, Santos-Dumont criava aeronaves de bambu, cujos propulsores eram acionados por tiras de borrachas enroladas. Divertia-se também “fazendo efêmeros balões de papel de seda” — mesmo só vendo um verdadeiro aos 15 anos, em São Paulo.

Quando não estava brincando com os amigos ou trabalhando em seus inventos, o pequeno Alberto dedicava-se à leitura de Julio Verne. Sentia que as aventuras visionárias do escritor francês eram apenas um aperitivo do que, um dia, viraria realidade. Aos 18 anos, conheceu a pátria de Verne. Foi com a família a Paris, onde jurava que veria balões dirigíveis. Eles ainda não existiam.

Se os céus encantavam Alberto, a terra firme também era fascinante para o jovem. Na fazenda de café onde nasceu, já guiava locomóveis — um tipo de automóvel movido a vapor — e, aos 12 anos, era o maquinista das locomotivas Baldwin que puxavam os trens na via férrea entre as plantações. Em Paris, onde os carros ainda eram raros, o jovem comprou um Peugeot. “De então em diante tornei-me adepto fervoroso do automóvel. Entretive-me a estudar os seus diversos órgãos e a ação de cada um. Aprendi a tratar e consertar a máquina. E quando, ao fim de sete meses, minha família voltou ao Brasil, levei comigo a minha Peugeot.”

Prestígio
Poucos anos depois, Santos-Dumont retornou, sozinho, a Paris. Lá, presenciou as maravilhas apresentadas na Exposição Universal, realizou o sonho de voar, tornou-se conhecido e respeitado no Aeroclube. Depois do voo do balão 6, o inventor ganhou ainda mais prestígio na capital francesa. Mas a glória veio com o feito de 23 de outubro de 1906, quando, pela primeira vez, uma aeronave movida a propulsão conseguiu voar. Embora os americanos considerem os irmãos Wright os “pais da aviação”, já que três anos antes a dupla ganhou os ares com um veículo mais pesado que o ar, o invento da dupla não decolava sozinho, mas precisava ganhar velocidade em um trilho. Além disso, se o vento não estivesse contrário, o avião não conseguia se erguer. Já o 14-bis decolava-se e mantinha-se no ar independentemente de fatores externos.

Se a genialidade de Santos-Dumont não deixa dúvidas, a vida pessoal do inventor ainda é uma incógnita. Homem reservado, não deu pistas suficientes nas inúmeras correspondências sobre sua intimidade. Os amigos o descreviam como uma pessoa generosa, que dividia o dinheiro de seus prêmios com outros inventores e entre os pobres. Sempre de chapéu panamá, vestindo camisas com colarinho alto e engomado, não se conformava em medir por volta de 1,6m. Ele mesmo desenhava suas roupas, de formas a parecer menos baixinho. Mesmo assim, era conhecido como “Petit Santos” na França, apelido que lhe desagradava bastante.

Em Paris, virou ícone da moda. Seu rosto estava estampado em caixas de fósforo, louças, embalagens de charutos. Era um homem elegante, cujo estilo foi copiado por homens e mesmo mulheres. Não se sabe se teve algum caso amoroso — por isso mesmo, muitos historiadores acreditam que Santos-Dumont era homossexual. Tímido, não quis cursar uma universidade, e preferiu estudar sozinho, com um professor particular.

» Fontes bibliográficas: Os meus balões, de Santos Dumont, arquivo da Biblioteca Nacional; Uma alegria selvagem — Vida de Santos-Dumont, de Bia Hetzel; Santos Dumont e a invenção do avião, de Henrique Lins de Barros

Para saber mais
Em 1932, o triste fim

A biografia de Santos-Dumont é dúbia. Louvado pela genialidade e a generosidade, ao mesmo tempo ele é descrito como um homem que não aceitava derrotas. Discutia constantemente com os colegas do Aeroclube de Paris por discordar das regras dos concursos. Metódico, não gostava de ver suas coisas fora de ordem. A casa que projetou em Petrópolis, conhecida como “A encantada”, é uma amostra do estilo de vida do inventor. Mesmo milionário — tanto por herança quanto pelos prêmios recebidos —, construiu uma habitação frugal, que não dava muito espaço para visitas. O único luxo permitido no local foi o chuveiro de água quente, o primeiro do país, que era aquecido a álcool.

Na manhã de 23 de julho de 1932, pouco depois de estourar a Revolução Constitucionalista, o inventor colocou um fim à sua história. Doente, pesando 35kg, decepcionado com os rumos bélicos de suas engenhocas, Dumont trancou-se no quarto do hotel onde se hospedava, no Guarujá (SP), e enforcou-se com duas gravatas. A certidão de óbito foi escondida pelo governo durante 23 anos e somente em 1955 registrou-se a causa real da morte, antes disfarçada de ataque cardíaco.

A última pessoa a vê-lo com vida foi Antôno Mendes que, à época com 17 anos, e morto em 2004, dirigia charretes em Guarujá. “Dumont estava sereno e não havia nenhum indício de que dali a poucas horas iria se matar. Quando desceu da charrete, comentou comigo: ‘Eu inventei a desgraça do mundo’.”

Fonte: Correio Braziliense.

2 comentários:

  1. Olá, Otávio!
    Eu já conhecia a história do nosso grande inventor Santos-Dumont, que a documentação sobre os seus feitos, provam que de fato, ele realmente foi o 1º a voar "o mais pesado que o ar", coisa que é contestada pelos americanos, sem razão. E ele não inventou apenas as máquinas voadoras não! O hidroplano, um sistema anti-afogamento no mar, relógio de pulso e a sua maior invenção, a 1ª que foi provar que teimosia com criatividade também pode render bons frutos, i. é: "quando a imaginação não é condenada pela realidade, podemos transformar as idéias em algo real", apesar de opiniões contrárias!
    Um abraço!

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  2. Olá,
    Sobre seu pedido de autorização de notícia sobre a Lua, informamos que a notícia não é nossa. Apenas reproduzimos o conteúdo retirado do blog Cienctec. Um abraço,

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