quarta-feira, 4 de maio de 2011

IstoÉ diz que lobista foi pago para intermediar com a Rússia viagem de Marcos Pontes ao espaço

Reportagem publicada na revista IstoÉ sobre como foi a verdadeira (segundo a revista) a negociação com a Rússia para a viagem do astronauta brasileiro Marcos Pontes aoespaço, em 2006.

"O lobista espacial"
A incrível história de João Gilberto Vaz, um gaúcho que virou cônsul da Bulgária e foi pago pelo Brasil para acertar com os russos a viagem do astronauta Marcos Pontes ao espaço
Por Claudio Dantas Sequeira
O cônsul honorário da Bulgária no Brasil é gaúcho, dono de uma empresa que vende imagens de satélite, empreendedor interessado em construir estádios para a Copa do Mundo, ex-cartola de um time de futebol formado por refugiados palestinos e responsável pela viagem espacial do primeiro astronauta brasileiro.
A sede do consulado fica no Rio de Janeiro, mas o cônsul, João Gilberto Vaz, despacha em Brasília, onde mora numa bela casa do Lago Sul. Na capital federal, apesar de tantas e tão variadas atividades, Vaz tem chamado mesmo a atenção é pelo seu controvertido trabalho como lobista.
João Gilberto Vaz gaba-se de ser o responsável por ter levado o astronauta Marcos Pontes à sua viagem turística à Estação Espacial Internacional, a ISS, na sigla em inglês. Na verdade, ele fez mais do que isso pelo programa espacial brasileiro.
Sabe-se lá por quê, em 1997 o Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe) convocou Vaz, que ainda não era cônsul, para intermediar o malfadado acordo com a Nasa para a participação brasileira na ISS. O custo para o Brasil seria de US$ 330 milhões, incluindo o fornecimento de algumas peças para um módulo que opera na estação espacial. O negócio foi firmado no final do governo FHC, arrastou-se pelo primeiro mandato de Lula e acabou anulado pela própria Nasa, irritada com os atrasos do Brasil em cumprir o cronograma de construção de itens da ISS. Nesse meio tempo, a vida de Vaz foi melhorando. Em função de contatos com a Academia de Ciências da Bulgária, que dividiria com os brasileiros experiências agrícolas na estação espacial, o lobista acabou convidado pela embaixada búlgara para integrar seu corpo consular. Além disso, ele recebeu ao menos US$ 10 milhões do Inpe pelo trabalho na aproximação com a agência espacial americana, apesar de existir uma ampla rede diplomática para tratar de assuntos como esses. Quando os acordos com a Nasa fracassaram, Vaz tratou de não deixar a Agência Espacial Brasileira (AEB) em uma situação vexatória. Foi ele quem intermediou com a Rússia a viagem do astronauta Marcos Pontes. Para essa missão, que custou R$ 30 milhões aos cofres públicos, Vaz teria ganhado mais alguns milhões de dólares, segundo afirmam seus detratores. Ele, no entanto, garante que tudo não passou da mais pura filantropia lobística. “Fiz um trabalho do mais alto nível. Mas não ganhei nem medalha.”
A atuação de Vaz na viagem de Pontes ao espaço ainda desperta desconfianças. Edmilson Costa Filho, coordenador de Programas e Projetos da AEB, conhece o lobista de longa data e é taxativo: “Pessoas como Vaz se aproveitam dos elos eticamente fracos do poder público. Se a AEB fosse uma agência forte e atuante, não precisaria de intermediários”, afirma. Já o senador Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), relator da nova política espacial, nunca ouviu falar do cônsul da Bulgária, mas questiona a necessidade de mediação privada num acordo entre agências governamentais. “Em tese, deveria ser feito diretamente”, diz.
Depois das desventuras espaciais, Vaz se dedica agora a projetos mais terrenos. No momento, ele está de olho nas oportunidades abertas pela Copa do Mundo no Brasil. Na semana passada, promoveu em Salvador, São Paulo e Rio uma série de encontros para tentar emplacar sua consultoria, a Arena do Brasil Ltda. A meta de Vaz é conquistar alguns dos milionários contratos para a construção e operação de estádios da Copa de 2014. Ele não é um novato na área futebolística. Em 2007, comprou um time da terceira divisão do Distrito Federal e o batizou com o nome da empresa que vende imagens de satélite, seu xodó naquela época. O “Brazsat Futebol Clube” era formado por refugiados palestinos vindos do Iraque, por meio de um convênio que Vaz assinou com a Acnur, a agência da ONU para refugiados. A equipe chegou a ser tema de um documentário na rede de tevê árabe Al Jazeera e avançou para a segunda divisão. O cartola João Gilberto Vaz não conseguiu, contudo, levar o Brazsat para a primeira divisão e o time foi desfeito. Mas com essa experiência ele abriu canais com a CBF, que agora utiliza em sua nova área de negócios.
Sempre bonachão e muito bem relacionado, Vaz é figurinha carimbada nos círculos da elite brasiliense. Costuma participar dos seminários promovidos pelo Gabinete de Segurança Institucional, fala sobre cursos feitos na Escola Superior de Guerra e não perde coquetéis e festas da comunidade diplomática. Chegou a integrar comitivas especiais, se diz amigo do deputado federal Protógenes Queiroz (PSOL-SP), o polêmico delegado da Operação Satiagraha, e exibe fotos ao lado do ex-presidente Lula e do arquiteto Oscar Niemeyer. Na sala de sua casa, expõe em posição de destaque o diploma de um curso de três dias que fez na Universidade de Harvard. Nem tudo em sua vida, porém, é sucesso. Algumas iniciativas de Vaz acabaram em encrencas com a justiça. Como em 2002, quando ele tentou representar no Brasil a companhia americana Space Systems/Loral, uma das maiores fabricantes de sistemas de satélites. Pouco tempo depois, a empresa rescindiu o contrato. “A Brazsat nunca teve poderes para representar legalmente e vincular a SS/L a qualquer tipo de obrigação e, portanto, a SS/L não se responsabiliza por atos praticados pela Brazsat e por seu principal cotista, o sr. João Gilberto Vaz”, registrou a empresa americana em cartório. Mas coisas desse tipo não chegam a inibir o ritmo frenético da atividade diplomática do cônsul honorário da Bulgária. Ele não tem limites.

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