quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Anomalias no cinturão de Van Allen fizeram o satélite CoRot 'pifar'

O revolucionário satélite parou de funcionar ao passar pelo Atlântico Sul


Dois mil e treze começa com más notícias para a busca de exoplanetas. A história é a seguinte.

A missão CoRoT, sigla em inglês para Convecção, Rotação e Trânsito Planetário (Corot é um pintor francês, a sigla foi formada para homenageá-lo) tem como objetivo observar a mesma região do céu durante um período bem longo. Dessas observações, as variações de brilho das estrelas são estudadas com o objetivo de se descobrir planetas — através do método de trânsito (quando o planeta passa defronte à estrela) –, além de estudar a rotação das estrelas e a pulsação delas, por meio de um telescópio óptico de pouco mais de 25 cm de diâmetro. Essa é uma missão francesa, mas com intensa participação brasileira.

O satélite CoRoT foi a primeira missão espacial dedicada a procurar exoplanetas e desde 2007 já encontrou 34 (todos confirmados posteriormente) e mais 5 outros que estão próximos de serem confirmados.

Mas o quê teria acontecido com o satélite?
O problema começou em 2009, quando o CoRoT deixou de enviar dados para a Terra. Um baita susto, mas todo o satélite foi construído com sistemas redundantes, ou seja, com sistemas duplicados para serem usados em caso de falha do sistema principal. Desde então ele vinha operando normalmente no sistema alternativo. Mas no dia 2 de novembro último, o sistema de transmissão de dados deixou de funcionar. A telemetria mostra que todos os outros sistemas estão funcionando perfeitamente, toda ordem vinda da Terra é processada, mas o CoRoT não responde. Os engenheiros sabem disso por que a temperatura interna dos circuitos aumenta todas as vezes que enviam algum comando.

Depois de tentar todas as possibilidades, os engenheiros foram para a trivial reinicialização dos sistemas, o popular “reboot”. Mas nem assim o sistema respondeu. O que teria acontecido?


As falhas no sistema de transmissão de dados e seu backup aconteceram quando o satélite passava sobre uma região chamada Anomalia Magnética do Atlântico Sul. Nessa região, o cinturão de Van Allen, um cinturão de partículas carregadas que envolve a Terra, se aprofunda. Normalmente a 6-7 mil km de altura, nessa região do Atlântico Sul (mas que atinge boa parte do Brasil) o cinturão desce a quase 200 km, o que traz para baixo uma quantidade enorme de prótons altamente energéticos.

Essa anomalia é conhecida e muito temida pelos engenheiros de satélites, pois qualquer equipamento que tenha que atravessar essa região precisa ter uma blindagem muito mais robusta, como acontece com a Estação Espacial Internacional. Mesmo assim, a Nasa frequentemente reporta que notebooks modernos não resistem e acabam reinicializando sozinhos, ou mesmo pifando. Para se ter uma ideia da gravidade dessa exposição a essas partículas, o telescópio espacial Hubble não faz observações quando passa sobre essa região.

Ao que parece, a causa mais provável da falha foi uma sobrecarga ou mesmo um curto circuito provocado pelas correntes induzidas nos circuitos elétricos. Isso já aconteceu antes com outros experimentos que voaram sobre essa região. Malcon Fridlung, cientista da missão na Agência Espacial Europeia, disse que os engenheiros ainda procuram uma maneira de recuperar o satélite, mas que ele mesmo não acredita que dará certo.

Uma grande pena, pois a missão do CoRoT, que iria durar apenas 2 anos e meio, tinha sido estendida até novembro de 2012 devido ao seu sucesso. Poucos dias antes da falha, uma segunda extensão até 2016 havia sido aprovada. O CoRoT foi o telescópio a detectar o primeiro exoplaneta rochoso em 2009. O CoRoT-7b está a 470 anos luz de distância, é um planeta com massa cinco vezes maior que a da Terra e deve ter temperaturas tão altas quanto 3.500º C.

Se confirmadas as expectativas, será uma grande pena realmente, mas como se diz em francês “c’est la vie” (“é a vida”, na tradução literal).


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