quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Entrevista com Diretor da Acrux Aerospace Technologies, Oswaldo Loureda

A entrevista foi feita por Duda Falcão, do Blog Brazillian Space.
Oswaldo Loureda, diretor da ATT (de 2008) é participante assíduo dos eventos do Clube de Astronomia Louis Cruls e é umas das promessas do setor privado da exploração espacial no Brasil.
Em maio do ano passado lançou o foguete ATT2 da praia do Farol de São Thome em Campos dos Goytacazes; como parte do projeto "Rumo ao Espaço" desenvolvido pelo Clube de Astronomia Louis Cruls, pelo IFF, pela Acrux, com o apoio da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima e da Secretaria Municipal de Educação de Campos dos Goytacazes.
Website da Acrux Aerospace Technologies (http://www.aatsolutions.net/)
Abaixo a entrevista:

BRAZILIAN SPACE: Nos fale sobre o senhor, sua formação, idade, onde nasceu e se tem outra atividade além de ser o diretor da Acrux Aerospace Technologies?
OSWALDO LOUREDA: Bom, nasci em Sorocaba, interior paulista, e bem cedo vim a grande São Paulo com meus pais. Ja era apaixonado pelo tema quando criança, com o tempo fui me direcionando para o campo da mecânica, aos 15 anos consegui entrar na escola técnica estadual Basilides de Godoy, na segunda turma do novo curso de mecatrônica onde comecei a sentir que meus sonhos aeroespaciais podiam algum dia vir a se realizar. Nessa escola participei de um projeto de Iniciação Científica junior onde aprendi o que era pesquisa. Fiz estágios nos laboratórios dessa escola e posteriomente no departamento de Física Nuclear da USP e aos 17 anos entrei na Faculdade de Tecnologia de São Paulo, no curso de Mecânica de Precisão. Nessa faculdade do estado aprendi a importância da persistência e da dedicação, dentro de projetos que participei como o de Aerodesign, grupo LENDA, Iniciação Científica no desenvolvimento de foguetes de sondagem, e claro, o próprio trabalho de conclusão, que na FATEC deve ser projetado, calculado e fabricado pelos alunos. No último semestre da minha graduação entrei no processo seletivo do mestrado do ITA, onde fui aprovado como bolsista para o desenvolvimento de Motores-Foguete a propelente Líquido de baixo custo, fiz um semestre desse mestrado, e logo em seguida entrei em outro mestrado do IAE/ITA em parceria com a escola russa MAI, com o objetivo de formação de recursos humanos em propulsão líquida especificamente. Devido a minha formação em mecânica, direcionei minha dissertação no tema de fabricação desses motores, e logo consegui o título de mestre em engenharia aeroespacial, logo após a minha defesa, fui aprovado para o curso de Doutorado em Engenharia Mecânica-Aeronáutica no ITA e fui contratado como Tecnologista pleno no Laboratório de Propulsão Líquida – LPL/IAE, onde trabalho durante o dia.
 
BRAZILIAN SPACE: Como surgiu a Acrux?
OSWALDO LOUREDA: A Acrux surgiu durante meu curso de mestrado, onde enxerguei o nicho de mercado para vários componentes de foguetes, e logo em seguida encaminhei um projeto a INCUBAERO, onde fui convidado a entrar em maio de 2008, ja no final de 2008 o projeto Acrux foi finalmente registrado na junta de comercio de São José dos Campos como empresa de consultoria em engenharia mecânica, foi ai o nascimento da ACRUX AEROSPACE TECHNOLOGIES, como temos intenções de venda no exterior precisavamos de um nome que definisse de forma simples e objetiva o que faziamos, e junto a ele escolhemos o nome em latim da estrela de magalhães, a alpha da constelção do Cruzeiro do Sul, que inclusive é uma alusão a nosso estado sede, São Paulo, representado pela ACRUX na bandeira nacional. O início foi bem sacrificante para mim e para minha noiva na época, Jéssyca Barbosa, que era parte integrante da empresa, e quem mais me apoiou no início desta empreitada, juntamente com meu pai que é um dos nossos atuais sócios.

BRAZILIAN SPACE: Segundo a website da Acrux a mesma está envolvida com projetos direcionados a área de educação. Como isto funciona e qual é o objetivo da empresa com esses projetos?
OSWALDO LOUREDA: A Acrux foi fundada não com o objetivo primário de faturar, mas sim gerar benefícios a sociedade brasileira, acreditamos que a educação é o que essa nação mais precisa atualmente, sendo assim a Acrux vem buscando meios de contribuir com o incentivo ao estudo, principalmente a ciências exatas. Temos atualmente vários projetos no campo educacional, estamos finalizando o desenvolvimento de equipamentos laboratorias como telescópios e microscópios com câmeras, foguetes didáticos, kits de ciruitos eletrônicos didáticos, além desses produtos temos um Gibi educativo chamado “As Descobertas de Geninho e sua turma” que desmistifica temas como foguetes e satélites. Outro produto, é um pacote onde enviamos monitores da empresa, ou mesmo damos o treinamento para professores do colégio, juntamente com kits de materiais didáticos e algumas palestras, no final os alunos envolvidos montam um experimento eletrônico e integram ao compartimento de carga de um dos nossos foguetes. Então o foguete é lançado pela Acrux e os alunos são convidados a participar da campanha e fazer as análises dos dados coletados. Mas ainda esta em fase de desenvolvimento, precisamos atualmente de um pedagogo empolgado para acelerar esse processo.
 
BRAZILIAN SPACE: Em contato ano passado com o blog o senhor nos informou que estava pensando em realizar um evento baseado no modelo conhecido como “Spacecamp”, amplamente defendido pelo nosso blog. Como vai essa idéia, ela avançou?
OSWALDO LOUREDA: Estamos planejando esse evento agora para o meio do ano, será um evento bastante interessante e realmente muito empolgante para os alunos que tem interesse nessa área, nosso objetivo com ele é o de germinar jovens cientistas

BRAZILIAN SPACE: Junto com o grupo “Edge Of Space” a Acrux vem se destacando no Brasil no desenvolvimento de motores e de foguetes. Segundo o website da empresa, a mesma já desenvolveu dois foguetes sendo eles o AATv1 e o AATv2. Quais são os objetivos desses foguetes e quando eles estarão à disposição para serem comercializados?
OSWALDO LOUREDA: Bom, ambos os foguetes foram testados, sob o nome comercial de FOG500 e FOG5K, o primeiro é de uso educacional principalmente, assim ele não é comercializado, mas sim seu lançamento. Em relação ao FOG5K, o mesmo esta pronto, mas seu computador esta em desenvolvimento ainda, assim, a Acrux contratou uma jovem prodígio, Daniele Ronso aluna da FATEC-SJC para o desenvolvimento dos sistemas embarcados deste foguetes. O Próximo passo é o FOG10K, já projetado e em fase de negociação para o fornecimento do propelente. Tal foguete terá fins de uso científico e tecnológico, além de aplicação educacional para faculdades.
 
BRAZILIAN SPACE: Ainda na área de foguetes a website da Acrux destaca o desenvolvimento de um outro foguete chamado AATv3. Qual é a situação atual do projeto deste foguete e qual o seu real objetivo?
OSWALDO LOUREDA: O nosso FOG30K é um foguete com apogeu de 30km e tem fim de exploração da camada de ozônio, e substituição de Radiosondas. Além claro de foguete treinador para equipes de bases de lançamento. Ele possui um paraquedas especial que o permite flutuar no mar, assim o mesmo é lançado em direção ao mar, e possui sistemas de localização, video câmera, e um computador para registro e armazenamento dos dados de vôo e ambientais. Outra aplicação para o mesmo é o teste de circuitos e componentes que serão embarcados em foguetes maiores, satélites e até mesmo em VANTs.
 
BRAZILIAN SPACE: Existe alguma intenção por parte da empresa de desenvolver um foguete de sondagem que alcance os 100 km de altitude?
OSWALDO LOUREDA: A empresa ainda não visualiza um nicho de mercado claro para foguetes deste porte, talvez com a qualificação do FOG30K esse mercado comece a se tornar mais atraente.
 
BRAZILIAN SPACE: E na área de pequenos lançadores de satélites, existe algum plano?
OSWALDO LOUREDA: Montamos uma equipe de colaboradores no ITA onde escrevemos um projeto ao CNPq para financiamento de o Projeto Preliminar de um Veículo Lançador de Nanosatélites – VLN, que batizamos de MONTENEGRO. Tal projeto foi aprovado pelo CNPq e estamos no aguardo do inicio do mesmo. Mas ja temos selecionado uma equipe de 10 pessoas para o desenvolvimento deste projeto. Acreditamos que em 2 anos tenhamos um projeto pronto para ao menos uma PDR – (Preliminary Design Review), com especificação inicial para satélites de 10kg com orbita equatorial de 300km. O grande desafio esta no custo deste tipo de foguete que deve ser menor que US$ 1 Milhão, este é um mercado do futuro, apostamos que dentro de 5 anos teremos a demanda de ao menos 10 lançamentos deste tipo ao ano, no entanto, com a qualificação e disponibilização deste veículo com certeza o mercado deve crescer mais rápido.

BRAZILIAN SPACE: Como vai a área de desenvolvimento de motores-foguetes sólidos da empresa, alguma novidade que o senhor gostaria de destacar?
OSWALDO LOUREDA: Este é um campo muito dinâmico, sempre com novos materiais e desenhos, fizemos recentemente o ensaio do upgrade do motor do FOG5K, no entanto tivemos a falha deste motor, com uma explosão considerável, no entanto, como seguimos rígidas normas de segurança não houve nenhum dano. Também estamos no processo para acertar o fornecimento de um novo propelente, bem mais energético que o nosso atual, viabilizando assim o teste do FOG10K que ja deve ser carregado com este novo propelente.
 
BRAZILIAN SPACE: E a área de motores-foguetes líquidos, há algum projeto em vista pela empresa?
OSWALDO LOUREDA: De certo temos a participação em um projeto UNIESPAÇO angariado pelo meu orientador e eu aqui no ITA, o qual preve o projeto, fabricação e ensaio de um pequeno propulsor de oxigênio líquido e etanol Ablativo. Tal projeto é desenvolvido por mim como tema de meu Doutorado, e tem grande importância extratégica para os foguetes líquidos de pequeno porte como o nosso MONTENEGRO. O foco deste trabalho esta no desenvolvimento de motores confiáveis, leves e principlamente baratos de fabricar, viabilizando o emprego dos mesmos em foguetes de baixo custo como os de sondagem, nanolançadores e de treinamento.
Além deste projeto a Acrux foi contratada este ano para a fabricação de um Mock-Up do Motor líquido L-75 para o IAE, tal projeto vem ocupando bastante nossa equipe, principalmente nosso sócio Waldir Vieira, e os colaboradores Waldinir Vieira e Leonardo Costa. Apesar de ser apenas um Mock-Up, o mesmo exige processos de fabricação e materiais que em vários componentes são os mesmos utilizados no motor de vôo, assim estamos adquirindo um enorme know-how na fabricação de motores líquidos.

BRAZILIAN SPACE: Existe algum projeto em andamento ainda não divulgado pela empresa que o senhor gostaria de destacar para os leitores do blog?
OSWALDO LOUREDA: Atualmente estamos com vários projetos, podemos destacar os trabalhos com a empresa HelenDescarts de equipamentos hospitalares, esse novo projeto de fabricação do Mock-Up do L75, estamos muito próximos também de conseguir o pedido de fabricação do Mock-Up do Satélite ITASAT. Em paralelo continuamos com o desenvolvimento de nossos projetos educacionais, de foguetes de sondagem, e nos últimos meses estamos também investindo no campo de consultoria em automação de precisão. A Acrux é uma empresa bastante versátil, se confundindo com a identidade física de sua equipe, bastante multidisciplinar, tal estratégia é bastante criticada no Brasil, no entanto, devido à enorme sazonalidade deste setor, precisamos ter outras divisões faturando, de modo a manter o mínimo de liquidez e fluxo de caixa, independe do setor aeroespacial.
 
BRAZILIAN SPACE: Finalizando senhor Loureda, sendo um profissional do setor, qual é a sua expectativa com relação ao desempenho do governo DILMA no setor espacial?
OSWALDO LOUREDA: Como sonhador que sou, tento sempre me manter otimista, no entanto, nos últimos dias temos observado alguns fatos que são extremamente promissores, o maior deles foi a nomeação do Dr. Raupp como novo presidente da AEB, o conheci no Parque Tecnológico de São josé dos Campos, e tenho grande expectativa quanto ao novo direcionamento que o mesmo deve imprimir a AEB, juntamente a este fato, temos o atual Ministro da Ciência e Tecnologia, Sr. Mercadante mostrando grande sensibilização com os problemas do DCTA e INPE, assim como a própria Presidente tem apresentado interesse na criação de uma agência com mais autonomia e atuação. Assim estamos bastante otimistas, no entanto, sempre buscando clientes nos mais variados campos, de modo a garantir a robustez da empresa, afinal, o financiamento de nossos foguetes e materiais didáticos vem destes serviços. 
Fonte: Blog Brazilian Space.

Um comentário:

  1. Olá, Otávio!
    Ah... se parte do dinheiro que é desviado todo ano, por pessoas que nós colocamos nos postos públicos, tivesse aplicação em projetos científicos e tecnológicos como o desse senhor... o Brasil a muito tempo, já seria de fato, um competidor de igual para igual com as nações mais desenvolvidas!
    Um abraço!!!!!

    ResponderExcluir