sexta-feira, 15 de abril de 2011

Em artigo, Mourão fala sobre os 50 anos do voo de Gagarin

Abaixo reportagem publicada dia 11 de abril no Jornal do Brasil na qual o astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas Mourão fala sobre a ida do primeiro homem ao espaço: Yuri Gagarin. Vale a pena ler.

"Gagarin: 50 Anos do Primeiro Vôo Espacial Tripulado"

Ao contrário de todas as previsões anteriores ao lançamento do primeiro satélite artificial – o Sputnik 1 –, em 4 de outubro de 1957, a conquista do espaço a partir deste acontecimento desenvolveu-se num ritmo inimaginável. Até então a supremacia dos EUA era inquestionável no domínio das tecnologias de ponta. Com objetivo de mostrar que a sua superioridade não era um fato isolado, os soviéticos decidiram lançar, em 3 de novembro de 1957, um segundo satélite - o Sputnik 2 - com uma carga útil espetacular: uma pequena cadela – Laika –, o primeiro ser vivo a girar ao redor da Terra.

Diante das realizações soviéticas, os projetos norte-americanos pareciam ridículos. De fato, o primeiro satélite dos EUA - Pamplemousse -, que deveria ser lançado por um foguete Vanguard, possuía massa de 1,8kg, quantidade insignificante em relação à de 508 kg do Sputnik 2.

Após sucessivos fracassos, o fusólogo alemão Von Braun foi autorizado a transformar o Júpiter-C em um lançador espacial. Em 31 de janeiro de 1958, o primeiro satélite dos EUA – o Explorer-1 -, com massa de 14 kg entrou em órbita, quando foi detectada a existência de um cinturão de radiação ao redor do nosso planeta. Esta foi a primeira mais importante descoberta científica realizada desde o início da era espacial. Só em 17 de março de 1958 um Vanguard conseguiu satelizar Pamplemousse. Dois meses mais tarde, em 15 de maio de 1958, os soviéticos colocaram em órbita o Sputnik 3, com massa de 1.327 kg, do qual 968 kg de instrumentos, um recorde para a época.

Todos os primeiros grandes sucessos espaciais soviéticos ocorreram num dos períodos mais difíceis da Guerra Fria, entre o fim dos anos 50 e início dos 60, quando as duas superpotências se confrontaram no terreno militar (Muro de Berlim, a Guerra da Coreia, a crise dos mísseis de Cuba, etc). Em todo o mundo, os homens – livres ou não – questionavam qual dos dois sistemas sociais e políticos que se contrapunham – de um lado o comunismo, do outro o capitalismo – constituía aquele que deveria prevalecer por sua capacidade científico-tecnológica. Para um público mais seleto, que acumulava uma cultura de séculos, associada às viagens cósmicas e dezenas de anos de ficção científica, não tinha dúvida: a maior potência no mundo seria aquela que soubesse impor-se na conquista do cosmos. Para os leigos as atividades espaciais provocavam um enorme impacto: para os homens, as mulheres e as crianças, o domínio dos céus era até então uma área de adoração divina. Ainda hoje, existem indivíduos que não acreditam que o homem foi à Lua...

Rapidamente, o espaço se transformou no principal palco de uma série de grandes batalhas da Guerra Fria – um combate até certo ponto pacífico – mas que provocou uma intensa mobilização econômico-tecno-científica jamais vista. A corrida ao espaço é desde 1957 a prioridade das prioridades para as duas superpotências. Na primeira etapa, a preocupação era a colocação em órbita de satélites ao redor da Terra. Na segunda, o envio de sondas automáticas em direção à Lua e aos planetas Marte e Vênus. A terceira etapa – a mais importante e audaciosa – era colocar um homem no espaço.

Sob o ponto de vista técnico, o desafio era enorme. O ambiente espacial não é próprio à vida humana: além do vazio quase absoluto, as radiações perigosas, as temperaturas, os meteoros etc constituíam uma ameaça permanente a ser controlada. Aliás, desde 1957, ou seja, alguns meses somente após a satelização do primeiro Sputnik, quando a astronáutica ainda dava os seus primeiros passos, os americanos e os soviéticos começaram a sonhar com os voos espaciais tripulados.

Finalmente, em 12 de abril de 1961, às 9h7, hora local, Gagárin foi lançado ao espaço na nave Vostok 1, do cosmódromo Tyuratam-Baikonur. Após uma viagem de uma hora e 48 minutos, aterrissou na aldeia de Smelovka, em Saratskaia. Sua espaçonave descreveu uma órbita com perigeu (ponto mais próximo da Terra) de 181 km e apogeu (ponto mais afastado da Terra) de 327 km, em 89 minutos. Gagárin permaneceu sentado no interior da cápsula esférica que o transportou no espaço até a aterrissagem. Como a nave era totalmente automatizada, o papel do herói do primeiro voo orbital “tripulado” foi de um mero espectador. Ao contrário do que ocorreu nos cinco voos subsequentes, quando um assento ejetor foi usado a 7 mil metros de altitude, presumivelmente para evitar o violento impacto com o solo, permitindo aos cosmonautas descerem suavemente de paraquedas.

A nave com Gagárin desceu, às 10h55, hora local, próximo à cidade de Smelovka, a 23 km de Saratov. Logo depois que a cápsula recuperável atingiu o solo, os cintos de segurança se romperam automaticamente. Gagárin abriu a escotilha e saiu do veículo diante do olhar espantado de uma velha camponesa e de sua filha Rita, que indagou:

- Você veio do céu, por acaso?

- Imagine você que sim - respondeu Gagárin, que logo em seguida foi levado por um grupo de soldados que, mais tarde, instalaram um posto de guarda junto à cápsula. Pouco depois, um helicóptero M14, do grupo de recuperação, pousou nas vizinhanças.

O comissário esportivo – Ivan Borissenko - registrou os primeiros recordes, segundo as regras a Federação Aeronáutica Internacional: recorde de altura: 327 km; de tempo: 108 minutos; de peso do veículo cósmico: 4.725 kg. Logo em seguida, o helicóptero conduziu Gagárin ao aeroporto mais próximo, de onde telefonou para os dirigentes soviéticos. Por volta das 4 horas da tarde, um avião Illiuchin – 14 aterrissou no aeroporto de Kuibychev. Gagárin foi o primeiro a descer do avião.

O enviado especial do Pravda entrevistou-o:

- Como é o céu, lá de cima?

- Escuro, camarada, muito escuro? - respondeu.

- E a Terra, como a viu?

- Ela é azul. Quando sobrevoava a América do Sul e a África, vi a costa e os grandes lagos. É uma paisagem admirável.

Dois dias depois de sua aterrissagem, Gagárin foi recebido no Kremlin como herói nacional. Sua fama transformou-o num embaixador da alta tecnologia e da coragem soviéticas. Com esse objetivo viajou ao redor do mundo tendo sido recebido nas principais cidades como um herói da humanidade. Depois de passar por Cuba, Gagárin esteve no Brasil, aonde chegou no dia 29 de julho de 1961. Após visitar Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília voltou em 5 de agosto. Na cidade do Rio de Janeiro foi recebido, na Casa da Gávea Pequena, então propriedade do banqueiro Drault Ernanny, por um grupo de cientistas e intelectuais, dentre eles Leite Lopes, Álvaro Alberto, Osório Meirelles, Luiz Muniz Barreto e o autor deste artigo. Ao chegar a Brasília, foi recepcionado por Jânio Quadros, que o condecorou com a Medalha do Cruzeiro do Sul. Depois de contemplar a cidade construída por Oscar Niemeyer, o cosmonauta comentou: “A impressão que tenho é a de estar chegando a um planeta diferente.”

Ainda em Brasília, a mensagem do chefe de governo Nikita Kruchev ao presidente brasileiro entregue por Gagárin foi o primeiro passo para o restabelecimento de relações diplomáticas entre as duas nações, o que iria acontecer em dezembro de 1961.

O primeiro astronauta, Yúri Alekseevitch Gagárin, nasceu em 9 de março de 1934, na aldeia de Kluchino, na parte ocidental da Rússia. Seu pai -- Aleksei Gagárin -- era carpinteiro e a mãe -- ordenhadeira. Após a II Guerra Mundial, a família de Gagárin transferiu-se para a cidade de Gjatsk, atual Gagarin, em homenagem a seu mais ilustre habitante. Uma vez concluídos os estudos na escola secundária, Yúri ingressou numa escola técnica de fundidores. Sua grande paixão pela técnica, bem como pelo esporte, muito influenciou seu destino, em particular na escolha da profissão. Após ter sido aprovado no concurso de admissão, matriculou-se na Escola Técnico-Profissional de Sarátov, onde foi dedicado aluno de matemática e física, duas de suas matérias favoritas. Uma de suas dissertações seria dedicada ao pioneiro da cosmonáutica soviética, o mestre-escola Konstantin Tsiolkóvski, cujas obras, como confessou mais tarde, transformaram sua visão do mundo.

Enquanto preparava sua tese de fim de curso, Yúri aprendeu a pilotar avião no aeroclube local, durante a noite. Estava dado o grande passo que o conduziria à Escola de Aviação de Orenburgo. Nesta escola encontrou Valentina, com quem se casou e de quem teria mais tarde dois filhos. Ao concluir o curso de aviador, foi-lhe proposto o emprego de piloto-instrutor. Não aceitou, preferindo ir voar, em condições meteorológicas mais adversas, no norte da Rússia. Tornou-se assim um perito em voo. Ao atingir a idade de 26 anos e após passar no exame médico, Yúri entrou para o grupo dos dez primeiros cosmonautas soviéticos. Depois de um ano de estudos e treinamentos foi escolhido para ser colocado em órbita ao redor da Terra. Durante um voo de treinamento, num Mig-15 de dois lugares, versão de treinamento do primeiro caça a jato da força aérea soviética, os cosmonautas Yúri Gagárin e Vladimir Seriogin foram obrigados a proceder a uma brusca manobra para evitar uma colisão com dois outros aviões, um Mig 21 e outro Mig 15, que se aproximavam perigosamente do jato de Gagárin. Depois de entrar em parafuso, girando fora de controle, o avião de Gagárin caiu num ponto a nordeste de Moscou. Assim, desapareceu, a 27 de março de 1968, o primeiro homem a realizar uma volta completa ao redor da Terra num satélite artificial.

Até o início de 1988 haviam sido sugeridas diversas hipóteses para explicar o acidente. Uma primeira investigação inclinou-se por uma sabotagem a bomba ou por envenenamento dos dois pilotos. Uma segunda sugeriu que Gagárin e Seriogin haviam perdido o controle do pequeno caça depois de uma colisão com um pássaro ou um balão meteorológico. Finalmente, em janeiro de 1988, depois de uma reinvestigação do caso, ficou evidente que o acidente foi provocado por um erro da torre de controle de voo e de tráfego aéreo, ao permitir que dois outros aviões penetrassem na mesma região em que o Mig 15 de Gagárin estava realizando um voo de treinamento.

A admiração de milhões de pessoas não lhe alterou a personalidade, e Gagárin conservou as melhores qualidades de caráter: sinceridade, coragem, perseverança. Deixou uma das mais célebre frases, que a humanidade já ouviu: "A Terra é azul".

O sucesso de Gagárin deu à astronáutica a dimensão humana e tornou realidade um velho sonho dos homens que idealizavam um dia viajar pelo espaço. O impacto provocado por Gagárin só seria comparável à descida dos norte-americanos Neil Armstrong e Edwin Aldrin na Lua, em 20 de julho de 1969.

Na realidade, apesar de Gagárin ser considerado um herói, o grande mérito da missão coube ao engenheiro de voo espacial Serguei Pavlovith Korolev (1927-1966) – o pai do programa espacial soviético – que concebeu, comandou e acompanhou pessoalmente todo o desenvolvimento do projeto Vostok 1, veículo que transportou Gagárin. Aliás, somente após a morte a identidade de Korolev foi revelada ao grande público. Em 1937, foi prisioneiro por quase seis anos no auge do regime de repressão de Stalin, que o soltou, em 1942, ao compreender que iria precisar do seu talento para projetar e construir mísseis durante a II Guerra Mundial.

As contribuições de Korolev à astronáutica são incríveis. Seu nome está associado às principais missões da era espacial: o primeiro satélite artificial da Terra (1957); as primeiras fotografias da fase oculta da Lua (Lunik III, 1959); o primeiro veículo espacial habitado: Yúri Gagárin (1961); a primeira mulher cosmonauta, Valentina Terechkova (1963); a primeira saída de um homem no espaço: Aleksei Leonov (1965); o primeiro impacto de uma sonda em outro planeta: Vênus (1966) e a primeira alunissagem de uma sonda (Lunik IX, 1966).

Na realidade, não é importante saber quem ganhou a corrida espacial, mas procurar compreender as razões dos fracassos iniciais dos norte-americanos assim como as origens das dificuldades do programa lunar tripulado soviético que, aliás, teve início logo após o falecimento de Korolev, em 1966, por uma imperícia médica.

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