segunda-feira, 25 de março de 2013

É possível comprar e nomear uma estrela?

Coloque seu nome numa estrela

Numa noite à algumas semanas atrás, eu estava no Observatório onde trabalho e um garoto chegou para observar o céu. Ele me fez uma pergunta curiosa: "É possível comprar e nomear uma estrela?". Logo eu respondi que não era possível comprá-las, porque os seus nomes vinham de vários séculos atrás e/ou são catalogadas por números e letras, segundo normas. 

Mas ele prometia que tinha visto num programa que era possível comprá-las e ainda escolher os seus nomes. Então pesquisei sobre o assunto e achei uma ótima reportagem, publicada por um jornal em 2003.

Mas antes de ler, uma curiosidade: o único brasileiro nato que leva o nome num astro é Paulo Holvorcem, que descobriu o cometa Juels-Holvorcem, junto com seu colega americano na noite de 28 de dezembro de 2000. Se quiser "comprar" um estrela clique aqui, mas antes leia o texto abaixo "Vende-se estrelas":

(...) se você tiver algum dinheiro sobrando pode comprar um “certificado” numa “loja que vende estrelas”.
Numa mania originária dos Estados Unidos, onde se vende de tudo, essas empresas apenas utilizam as milhares de estrelas designadas numericamente nos catálogos estelares para que sejam atribuídas ao seu nome ou de uma pessoa querida.

Porém, a denominação escolhida jamais será reconhecida cientificamente. Não irá constar nos mapas celestes nem será mencionada pelos astrônomos, ficando restrita aos registros da empresa que lhe vendeu esse “certificado”.
E tudo isso pode ter tido origem na própria ciência. Planetários e museus norte-americanos ocasionalmente “vendiam” nomes para estrelas como forma de angariar fundos para essas instituições, sem fins lucrativos. Normalmente se tinha muito cuidado em explicar que a denominação não era legítima.

A estrela não vem junto
Como forma de agradecimento pela contribuição, as pessoas tinham seus nomes simbolicamente associados a uma estrela. Alguém percebeu ali uma forma fácil de ganhar dinheiro e abriu-se um filão. Hoje isso virou um comércio, sendo praticado por empresas que nem sempre se importam em deixar claro o que estão vendendo, limitando-se a dizer que “você não está comprando a estrela em si” – tão óbvio!

Esse “batismo fictício” envolve nomes tão comuns quanto Rita ou Laura e, é claro, muita gente famosa, como Ayrton Senna, o ator Leonard Nimoy (Dr. Spock, de Jornada nas Estrelas), a modelo Naomi Campbell, o jogador de basquete Magic Johnson, a cantora Madonna e mais Elton John, Phil Collins, Cher, Tom Cruise, Michelle Pfeiffer, Whoopi Goldberg, Garth Brooks, John Lennon, Marilyn Monroe, Jacques Cousteau, a princesa Diana, Frank Sinatra, Elvis Presley e até mesmo o Grinch!

Não esqueça o telescópio
Todos recebem um certificado e um mapa celeste com a localização do astro. Porém, mais uma vez, não se iluda com esse presente: você não poderá ver a “sua estrela” no céu.

Todas elas são astros do céu profundo e não podem ser vistas a olho nu nem com algumas lunetas (magnitude acima de 8,5). Se quiser observá-las, adquira um bom telescópio também.

Você não poderá nem mesmo escolher a constelação. Por outro lado, nada impede que você “registre” um mesmo nome em diferentes estrelas. Afinal, é tudo de mentirinha.

Na prática, o que se faz é uma espécie de ilusão. E como em todo espetáculo de ilusionismo, é preciso estar disposto a colaborar com o mágico. O “certificado” emitido lembra a antiga brincadeira de presentear um amigo com um jornal falso contendo uma matéria bem-humorada sobre ele – uma notícia que só existe naquele pedaço de papel.

Mas os nomes não são “oficiais”?
Talvez para confundir, alguns vendedores afirmam que a associação do seu nome a uma estrela fica “oficialmente registrada” na Biblioteca do Congresso ou no Escritório de Patentes dos Estados Unidos, por exemplo.

Mas isso significa simplesmente que o nome ficou registrado junto à empresa que vendeu os papéis (às vezes também é vendido um livro com todos os nomes já atribuídos – e essa publicação tem, naturalmente, um copyright). Congresso ou Escritório de Patentes de país nenhum tem autoridade para dar nomes as estrelas.

Isso não é ilegal?
É um presente simbólico. Uma atitude que pode ter um significado especial. Mas o “certificado” ou o mapa celeste mostrando a estrela com o seu nome é uma brincadeira. Pode ser de bom gosto, desde que quem dá e quem recebe entendam o gesto e não se deixem enganar.

Você sempre pode ir a uma floricultura e comprar um belíssimo bouquet. Ou pode colher um único botão de seu próprio jardim e oferecer a pessoa querida. Pode também escolher qualquer estrela do céu e “doá-la” a alguém. Ou comprar um “certificado” que atribui o seu nome a uma estrela do céu profundo. De qualquer modo é tudo simbólico.

Ficou famoso o caso de um jornalista que escreveu um livro sobre o brasileiro Ayrton Senna, no qual mencionava uma estrela chamada Senna, homenagem que supostamente teria sido feita pela comunidade científica ao tricampeão da Fórmula 1. Há quem acredite nessa história até hoje. Mas é um grande mal-entendido: familiares (ou simplesmente fãs) do piloto é que haviam comprado um desses “certificados”.

Quem dá nome aos corpos celestes?
Um nome legítimo não pode ser comprado. O único órgão responsável pela nomenclatura dos corpos celestes é a União Astronômica Internacional, e suas decisões são tomadas seguindo critérios históricos.

A maioria das estrelas brilhantes receberam nomes há centenas de anos. Nomes originários do folclore e mitologia de gregos, árabes etc. As estrelas de brilho muito fraco – maioria no céu – recebem hoje apenas “nomes de catálogo”, que são designações com letras e números. Por isso há tantas estrelas sem um nome próprio.

Por outro lado, não é incomum que asteróides e cometas recebam nomes de pessoas – especialmente de seus descobridores. Assim, se você quer muito que um corpo celeste tenha o seu nome, compre um bom telescópio e mãos à obra. Céus limpos!

Por José Roberto V. Costa.


Fonte: 
Astronomia no Zênite (26 de fevereiro de 2011)
Tribuna de Santos (Costa, J. R. V. Vendem-se estrelas. Tribuna de Santos, Santos, 21 abr. 2003. Caderno de Ciência e Meio Ambiente, p. D-3.)

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