A morte de Juan Barrio, presidente da Associação Brasileira de Planetários

Luto na astronomia brasileira

No domingo (dia 6), a astronomia brasileira perdeu um grande ícone. Faleceu em Goiânia, o presidente da Associação Brasileira de Planetários (ABP), Juan Bernardino Marques Barrio. Professor da UFG, diretor do Planetário de Goiânia, físico e astrofísico, Juan Barrio falava da astronomia com um encanto único. 

Tive o prazer de conhecê-lo e não poderia deixar de mostrar aqui minha admiração por ele. Teve toda sua vida dedicada à educação e a divulgação científica, sempre com profundo zelo, em tudo o que fazia.

Em outubro de 2015, numa entrevista ao Jornal UFG, ele disse: "O Planetário é uma constante fantasia, um sonho. É uma utopia. Não vou chegar no pote de ouro no final do arco-íris nunca, mas eu quero caminhar para lá. No nível coletivo, quero dar às pessoas o que acho fantástico, o que me faz feliz".



Publico aqui um dos capítulos do livro "Educação em Astronomia no Brasil - história oral de vida de professores", no qual ele conta sua história de vida.


JUAN BERNARDINO MARQUES BARRIO

Meu nome é Juan Bernardino Marques Barrio. Nasci em Goiânia, em 26 de fevereiro de 1955. Então, eu sou “goiano do pé rachado”, como a gente costuma brincar. Sou filho de espanhóis. Meus pais moraram no Brasil no período de 1948 até 1973, que foi quando eu fui embora para Espanha também. Nós fomos todos juntos, e lá eu fiz a graduação no curso de Física, com área de concentração em Astrofísica.
Meu pai e minha mãe, saindo da Espanha em 1948, gastaram 22 dias de navio para chegar a Santos, porque avião era impossível. Eles foram para o interior de Minas tomar conta de uma fazenda, por dois anos, e, depois vieram até Goiânia. Por que Goiânia? Porque eles tinham ouvido falar de um espanhol de uma cidade vizinha à dele na Espanha, que estava em Goiânia. E chegaram sem profissão. Meu pai não tinha profissão; nem ensino médio ele tinha feito.

Ele veio na aventura, por questões de família, já que minha avó, mãe dele, não aceitava o casamento com a minha mãe, então eles resolveram ir embora. Coisas normais! E tinha ainda a tal conquista da América, desde o final do século XIX e a primeira metade do século XX. Isso foi muito forte para os europeus, entre eles muitos espanhóis. E vieram muitos da região da Galícia motivo pelo qual os espanhóis em geral são chamados de galegos. Meu pai não era galego, mas era de uma região, de uma cidade muito próxima da Galícia, na fronteira da Galícia, uns 30 Km. Então, praticamente, era um galego.

Como disse antes, primeiramente, eles ficaram na fazenda em Minas Gerais. Como lá não deu certo vieram para Goiás à procura dessa pessoa que estava em Goiânia, mas que ele não conhecia. Ele veio de trem para Goiânia. Inclusive, há histórias interessantes da viagem, como na travessia da fronteira de Minas com Goiás, que eles tiveram que descer do trem, para poder passar a ponte e o trem passar. Depois eles voltaram, porque a ponte não suportava o peso.

Ele chegou aqui, em Goiânia, e como não tinha profissão nenhuma. Pensou: “- Vou fazer o quê?” Foi fazer churros, vender churros nas festas religiosas e em lugares por aí. A experiência que meu pai tinha era de açougue. Com o tempo, ele acabou montando um açougue. Juntando-se com outro espanhol, eles montaram um dos primeiros açougues que vendia frangos já limpos. Normalmente, no início dos anos cinquenta, você comprava o frango em pé na feira. Cada um matava o dele em casa. Eles não! Eles arrumavam e já davam o frango limpo. Isso foi uma das novidades naquele tempo! Estou falando de cinquenta, cinquenta e cinco, sessenta anos atrás, praticamente.

Quando meus pais vieram para o Brasil, eu tinha uma irmã que veio quando eles já estavam em Goiânia. Outra irmã tinha falecido de sarampo na Espanha antes da vinda deles. E aqui, nascemos, meus dois irmãos e eu em 1955. Um em 1957 e a outra, depois, em 1964.
Em 1958, aos meus três anos a família foi para a Espanha. Morei lá entre 1958 e 1962. Nós voltamos quando eu tinha sete anos, justo no início da escolaridade. Só que eu fui alfabetizado lá, e aprendi o espanhol, naquele meu início, entre os meus quatro e seis anos. Chego aqui, e entro na escola. Minha vida escolar foi sempre em escola pública, sempre. Eu nunca estive numa escola particular, e sempre fui um aluno, daqueles “meia-boca”, eu acho, nada de “nerd”. 

Em 1973, quando nós voltamos para a Espanha, foi toda a família, inclusive, minha irmã mais velha, que já estava casada com um espanhol. O retorno da minha família para a Espanha tinha dois motivos, basicamente: primeiro, a minha irmã casada tinha tido duas gravidez, com nascimentos de crianças que morreram, uma com quatro horas de nascimento e outra com três dias. Os médicos diziam que um dos problemas poderiam ser o clima de Goiânia. Tanto é que, depois, quando voltou para a Espanha, ela teve dois filhos sem nenhum problema.

O segundo motivo era: o Juan queria fazer Física e queria ir para o Rio de Janeiro estudar. E eles acharam: “- Não! Então vamos todos para a Espanha, você estuda lá!”. Foi um pouco para resolver os problemas da família como um todo. Os irmãos mais novos não eram problema. Por quê? A Cristina, que era a pequena, estava com oito anos e o meu irmão Carlos tinha 15. Só eu que estava com os meus 18 e já estava no final do Ensino Médio e era início da universidade.

Eu tinha meu gosto pela Física e Matemática. Eram áreas que eu sempre tive facilidade e sempre acabava passando cola para os colegas. Era certo poder a mais nas relações. E foi uma vida normal. Participei do movimento estudantil. Eu acho que é difícil você pegar alguém, entre os anos 70, 72, no atual Ensino Médio, antigo científico, naquela faixa de 15 a 17 anos, e que não tivesse o mínimo de comprometimento social. Eu não vou dizer nem político, mas que não acabasse se envolvendo de alguma forma naqueles movimentos da época da ditadura. Eu tive amigos que desapareceram nesse período, e que estavam na presidência do grêmio estudantil. Então isso me fez, eu diria, de alguma forma, pensar muito na minha vida até hoje. Eu passei a ter sempre uma preocupação muito mais pelo coletivo do que pelo individual. É evidente que a gente não vai fazer nada contra si próprio, mas sempre pensando de forma coletiva, eu posso construir algo que seja melhor para viver. Eu acho que a minha vida estudantil foi pautada por esse certo envolvimento político estudantil. Não era uma liderança. Não, eu era um pouco a massa de manobra que os líderes tinham.
Com relação à Astronomia o meu primeiro contato se deu de forma explícita e muito marcante no período de 1958 a 1962, com meu avô, pastor, na Espanha, onde eu estive com ele duas noites e três dias na montanha, com as ovelhas. Ele me contava as histórias das constelações. Eu acho que tem dois grupos de pessoas que têm um conhecimento fantástico do céu: os pescadores do mar, não de rio, e os pastores.
Ele me contou muita história, mas não foi isso que determinou minha ida para a Astronomia. Porque, na realidade, quando eu fui para a Espanha, também não fui para fazer nada ligado à Astronomia. Queria trabalhar com Física Nuclear. Naquele momento, 1973, a usina de Angra estava em plena ebulição. E eu tinha ouvido algumas coisas sobre esta área do Luis Pinguelli Rosa, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Está no governo hoje.
Pinguelli trabalhou com a área de Energia Nuclear no Brasil, naquele momento, e isso me atraiu. Eu queria fazer Física Nuclear. Então, fui para a Espanha fazer Física Nuclear. Tanto é que eu participei durante algum tempo na minha graduação, em laboratório de energia nuclear, que pesquisavam a produção de energia por fusão termonuclear, com um TOKAMAK.
Eu estudei de 1974 a 80 na Universidade Complutense de Madrid. A turma que entrou nesse ano e foi fazer Física, tinha 460 estudantes. Pensar em 460 pessoas fazendo primeiro ano Física, é uma coisa de louco!. Foi uma turma muito grande! .
A graduação era de cinco anos. Eu demorei seis. O primeiro ano, apesar de eu ter um certo controle da língua espanhola, não foi fácil, nada fácil, porque uma coisa é você entender a língua, outra é você ser capaz de raciocinar nela. Eu tive muita dificuldade e, então, foi o primeiro ano onde eu, das quatro disciplinas, passei apenas em uma.
Na Faculdade de Física da Universidade Complutense, tinha um grupo de Astrofísica, onde eu comecei a me identificar com as pessoas, mais do que com o conhecimento em si. Então, houve essa identificação, particularmente, com um professor, José Pelayo (Pepe) e com os colegas de turma.
A partir do 3º ano, nós tínhamos que fazer uma opção. Você ia para Física Teórica, Astrofísica ou Física Meteorológica. Estas eram as áreas. Foi aí quando eu resolvi ir para Astrofísica. Então, apesar da vivencia com meu avô na infância, não é uma coisa de dizer que desde que eu era pequeno eu queria isso. Não! Foi uma coisa um pouco acidental, eu diria.
Eu acabei escolhendo essa área e não as outras pelo gosto do conteúdo trabalhado. Chamava-me muito mais atenção e, talvez, até um pouco pela forma da Astronomia, as idas a observatórios. Tudo isso começava a mexer comigo. Fui para o observatório de Granada, fui também a um Centro de Radioastronomia, instalado perto de Madri e estive na Estação de Segmento da Nasa, ali perto de Madrid, a 20km da cidade. E tem também o professor Pepe que foi também responsável por meu retorno para vir trabalhar no Brasil com Astronomia.
Em 1980, quando eu terminei a graduação, o Pepe tinha o contato com o professor espanhol Teodoro Vives, que estava dirigindo o Valongo . Na época eu vim, então, já com uma recomendação para ir trabalhar, exatamente, no Valongo.
O Pepe tinha sido orientando do Vives. E, O Viver já havia ficado uns anos em Belo Horizonte antes de ir para o Rio de Janeiro. Teodoro Vives é aquele que tem o livro de Astronomia de Posição. Ele era professor na Espanha e veio para o Brasil nos anos 70 para trabalhar na Universidade Federal de Minas, e, depois foi para o Valongo. Ele voltou para a Espanha, em 1982, e foi dirigir o Observatório Astronômico europeu de Almeria.
Eu terminei meu curso em setembro e em dezembro eu estava vindo para o Brasil. Eu vim e a ideia era ficar no Rio de Janeiro. Minha esposa que também é brasileira foi para a Espanha em 1978 e nós nos casamos lá. Ela também tinha um convite para trabalhar na UFRJ na área de Imunologia. Ela tinha trabalhado na Espanha num laboratório de Imunologia, de certo nível, de validação internacional e ela iria trabalhar com um pessoal no Rio de Janeiro.
Então aconteceram duas questões muito loucas. A primeira, quando eu chego ao Brasil, o meu pedido de contratação como professor colaborador, já estava na mesa do reitor da Universidade do Rio de Janeiro. Isso foi em finalzinho de dezembro e no dia primeiro de janeiro, o Presidente Figueiredo proíbe as contratações. Foi um período no qual ocorreram aquelas primeiras greves que houve na universidade brasileira, de mudança do plano de carreira. Então, aqueles professores, que eram contratados como colaboradores, eram convidados e depois faziam a efetivação.
Então, minha contratação foi suspensa naquele momento. Isso foi logo no final. Então, era janeiro, eu estava em Goiânia. E o que acontece? Até no meio do ano, passados três meses, naquele primeiro semestre eu tive um contato com a professora Zulema, no Centro de Radioastronomia do Mackenzie. Então, também tive uma possibilidade de ir para lá, para São Paulo, porque eu fui preparado para ser um Astrofísico, não um educador. Na verdade, Astrofísico puro.
Na minha graduação não era nada de licenciatura. Primeiro, porque na Espanha não existe uma distinção e, segundo, porque minha formação inicial era em Astrofísica. Eu brinco com essa questão: Astrofísica de altos voos, não de baixos. Estar lá no mundo do Universo! Então, eu tinha uma preparação adequada para aquilo. Essas coisas foram acontecendo.
Por outro lado, o professor com o qual a minha esposa ia trabalhar no Rio faleceu. Então, também foi outro problema! Não é para ir para o Rio. E, portanto, eu fiquei em Goiânia e surgiu um concurso para a Católica e, nesse concurso eu entrei e passei a ser professor lá. Na Católica eu fiz concurso para professor de Equações Diferenciais e para trabalhar com Física, como professor de Física Geral nos cursos de Biologia, Engenharia e no curso de Física. Era bem eclético. Lá eu comecei em agosto de 1981.

Também nesse primeiro semestre de 1981, eu fui ao Planetário de Goiânia e falei: “- Bem, já que eu estou por aí...” O espaço que eu teria é o planetário. No Planetário de Goiânia eu fui para conhecer, fazer um contato e ver a possibilidade de poder também começar a trabalhar lá. Afinal, se eu tinha feito Astrofísica, o espaço daqui, de Goiânia, em que poderia usar esse conhecimento, era o Planetário: “- Deixa eu ver o que tem para mim.” Não tinha nada a ver com a questão educacional.
No planetário senti algo como “aqui não tem lugar para mim”. Fiquei meio desanimado, que lá não era o meu lugar e, de alguma forma, a gente fica sabendo de coisas que acontecem, onde houve uma articulação exatamente dos gestores da época. Naquele período, o reitor tinha contratado como colaboradores algumas pessoas para ficarem no planetário, mas que não tinham nenhuma formação em Astronomia. E eu acho que eles também sentiram um certo receio, do tipo: “- Puxa, tá chegando alguém.” Também tinha o Cláudio, que estava já contratado como astrônomo, e então eles podiam pensar: “- Nós vamos ter dois astrônomos aqui!” Eu entendo naturalmente, não guardo rancor. Tanto é que, depois, quando eu entrei no planetário, em 1991, ingressei na vaga que era do diretor naquele momento. Para mim, essas coisas são etapas e fases da vida. 

A questão da Educação não começa a aparecer para mim, até 1983, 84. Inclusive, quando eu começo as primeiras aulas na universidade, em 1981, eu era aquele professor bem tradicional, conteudista de “cabo a rabo”. Eu fui dar aula de Física e, talvez a melhor coisa que me aconteceu naquele momento foi que eu tive que dar aula de Física para a área de Biomédicas. Isso sim foi um desafio!. Um desafio imenso, porque eu comecei a enxergar que eu não podia trabalhar com a Física que eu estava trabalhando com os alunos da Engenharia, da mesma forma que com os alunos da Biomedicina. E isso me levou a começar a pensar que o ensinar já era diferenciado, não podia ser o mesmo. Os conteúdos sim, mas a forma, as metodologias que eu teria que utilizar não eram as mesmas.
Então, eu costumo dizer: “- A melhor coisa que me aconteceu em termos profissionais foi isso.” Poder perceber logo que tinha uma diferença. Isso, depois, com o tempo, eu vou adquirindo, em 1983, já dentro do curso, já que no planetário não me aceitaram.

Mas em 1983, foi necessário fazer a reforma curricular no curso de Física da Católica. Na época, eram aqueles cursos de licenciatura em Ciências com habilitação em Física, Geologia e Matemática, que era um pouco aquela licenciatura curta, de três anos. A discussão era de que nós precisávamos criar licenciaturas plenas. Foi o primeiro momento onde eu comecei a pensar em algo ligado a currículo e, em função da minha formação daqueles dois anos anteriores, no ensino da Física para diferentes áreas, eu comecei a perceber que a construção do currículo passava por muitas outras questões que não eram só os conteúdos. Naquele momento, eu consegui já criar um espaço para a Astronomia dentro do curso de Física. Então, fui construindo um espacinho próprio.

Ele foi só meu próprio, mas também entendo que um físico, um professor de Física, do Ensino Médio, que não tiver as mínimas noções de Astronomia, ele é capenga, como pode ser em muitos outros conteúdos, mas talvez esse é até mais importante do que muitos outros.
Então, esse foi o começo. Comecei a entender a necessidade da Astronomia de diferentes formas. Criei a disciplina Astronomia, na Católica, que era optativa. Na época, se chamava optativa para qualquer curso da universidade. Então, comecei a ter alunos de todos os cursos: da Arquitetura, da Enfermagem, do Direito, e assim por diante, e isso me levou também a começar cada vez mais a pensar de que forma o ensino da Astronomia e o ensino de todas as áreas da Física, que eu trabalhava, tinha que ser feito em função do curso que a gente ia trabalhando, mas, em particular, da Astronomia.
Eu tinha feito um mestrado na Espanha, quando terminei em 1980. Poderia ter revalidado, mas não o fiz. Em 1986, eu comecei a fazer o mestrado em Belo Horizonte, tendo o prof. Luis Paulo Ribeiro Vaz, como orientador. O mestrado era em Astrofísica. Nada a ver com Educação. Mas já tinha alguma coisa das questões do ensino, e de educação dentro de mim.

Comecei a fazer na Astrofísica. Analisando as variáveis físicas que influenciam na curva de luz de Estrelas Binárias Eclipsantes e como poderíamos construir a curva com menos pontos observados. Era uma ponte entre algo observacional e teórico na constelação de Hércules. O problema todo era que naquele momento a programação para construir a curva pedia milhares de pontos, o que levava muito tempo nos computadores da época.

Nessa época teve, também, um momento marcante, que foi a passagem do Halley, e o contato com o público, na observação. A Serra da Piedade abriu seus telescópios para o público. Eu acho que foi o meu primeiro contato com a Educação em Astronomia. Eu senti: “- Estou fazendo alguma coisa na área de Educação”.
Foi uma atividade pública, na qual conversando com as pessoas tínhamos que explicar e fazê-las entender o que era aquilo que estavam vendo. Então, eu acho que foi realmente, de verdade, o primeiro momento. Porque, mesmo que eu tivesse criado, já em 1984, 85, a disciplina de Astronomia no curso de Física, não era a mesma coisa. Ainda era aquele ensino muito formal, conteudista, onde eu passava aqueles conteúdos para os alunos da Física. Mas acho que a partir dali que eu comecei. Em 1991 eu fui aprovado no concurso para professor da Federal .

Vale dizer que eu não defendi a dissertação. Ela ficou pronta, impressa e o Luis Paulo foi para os Estados Unidos fazer o pós-doc dele e eu assumi a direção de uma unidade acadêmica da Católica. Isso foi em 1990. O mestrado foi com muita dificuldade, porque eu não tive licença. Então, eu saía daqui de Goiânia nos domingos à noite, viajava de ônibus até 2ª feira cedo, assistia aula 2ª, 3ª e 4ª, à noite eu voltava, dava aulas 5ª, 6ª e sábado. Isso foi durante um ano, para fazer os créditos. No terceiro semestre eu tive que fazer a disciplina de EPB que era às 6ªs feiras. Como só tinha essa disciplina tinha que viajar só para ela pois era presencial. Algumas vezes, os colegas assinavam para a gente, mas nem sempre!

Mas não deu certo de defender. E não deu certo por uma questão muito simples: o projeto que a gente tinha era de como nós construíamos uma curva de luz, usando o menor número de pontos para fazer a integração. Para quê? Economizar tempo de computador. Até aquele momento, entre 1990, mais ou menos, os computadores eram aquelas “vacas sagradas”, aqueles recintos fechados, com ar condicionado, que ninguém podia entrar, onde o operador do computador era uma única pessoa e ninguém mais podia ir naquele espaço. Você chegava com o programa, entregava e voltava dois ou três dias depois para pegar aquele punhado de folhas. Então, qual era a ideia? Era economizar tempo ali.

Às vezes, uma integração de uma curva de luz levava 9, 10 horas. E isso, porque eu teria que ter milhares de pontos. Então, nós fizemos a curva de luz simplesmente com 28 pontos para integrar. Então, o resultado estava pronto, só que, naquele momento, entre o Luís Paulo nos Estados Unidos, eu aqui, assumindo a direção da unidade, surgem os primeiros computadores de mesa. E o que a gente gastava 9 horas para fazer no computador grande, você fazia em dois minutos no computador pequeno. E a dissertação acabou perdendo o seu valor. Não tinha mais sentido, naquele momento.
Inclusive, lá mesmo, em Belo Horizonte, nós começamos a ter, naquele momento, as conexões de “internet”, já via telefone, porque o Luís Paulo tinha feito Doutorado na Dinamarca, e ele tinha também contato com o pessoal da Espanha através deste meio. 

Então esse mestrado ficou perdido. Não tive a titulação. Acabei sem título nenhum, porque eu não defendi. Então larguei e retornei às minhas atividades. Em 1994, deixei a direção da unidade acadêmica que eu tinha assumido na Católica e, fui introduzindo uma mudança que era um pouco a ideia que eu trazia da formação da Espanha: a licenciatura com uma área de concentração. Nós teríamos durante três anos uma licenciatura mais ou menos geral e no quarto ano você fazia uma área de concentração. Então, você está fazendo uma licenciatura em Física, e no quarto ano você faz uma área em Astronomia, em Física Teórica, por exemplo.

A ideia era essa. Só que aí se criou como se fosse especialização. E ao ser especialização, já era pós-graduação. Discussões legalistas. Também, durante a licenciatura, a ideia nossa era criar o que nós chamávamos de disciplinas nucleares. Então, nós íamos ter atividades interdisciplinares, uma por semestre, onde todos os alunos, de todas as licenciaturas fariam. Por exemplo, nós teríamos um assunto, que funciona como tema gerador, o Universo. Então, nessa atividade, no semestre, podia ser aluno da História, da Geografia, da Filosofia ou de Letras; eles teriam que fazer essas atividades. Estaria o corpo docente de todas as áreas trabalhando a concepção de Universo, na História, na Filosofia, na Letras, na licenciatura e assim por diante. 

Só que essas atividades, inicialmente pensadas assim, acabaram se transformando em “feudos” de disciplinas. Das seis atividades que tinham sido pensadas, que os alunos fizessem na licenciatura, acabaram se transformando em mais de trinta disciplinas. E uma dessas trinta era a Astronomia. Durante um período, entre 1994 e 1997, ministrei uma disciplina que se chamava “Astronomia e poesia”. 

Em setembro de 1991, com a aposentadoria de um professor do Planetário da UFG foi aberto um concurso e me apresentei como candidato. Fui aprovado e em dezembro desse ano assumi como professor. E aí começa minha vida no planetário. Ao ser professor das Universidades Católica e Federal ao mesmo tempo, comecei a trazer o quantitativo muito grande de alunos da Católica, do curso de Física e de outros também para ter atividades no planetário. A direção do planetário, na época, o professor Aloísio, me autorizou para isso e eu tinha autonomia. Então, eu comecei a utilizar a cúpula do planetário como a minha sala de aula. E esse período, principalmente, de 1994 a 1997, foi o que me deu possibilidade de desenvolver um processo de pesquisa e ação, de ter os dados, que eu depois utilizei na minha tese de Doutorado.

Mas tudo isso, eu fui fazendo empiricamente, muito empiricamente, sem um referencial teórico por trás. Eu não tinha! Eu tinha a percepção de que aquilo poderia vir a ser algo. Eu comecei fazer teatro com os alunos. O “Joãozinho da Maré” foi representado várias vezes pelos alunos da graduação. As poesias foram declamadas. Nós tínhamos saraus de poesia astronômica. Os alunos da disciplina é que montavam isso. Então, eu ia buscando muitas formas. Observação: nós tínhamos observatório astronômico também em funcionamento, que também utilizei. Então, usei os caminhos que dispunha. E talvez a minha sorte para o Doutorado foi que fui guardando tudo destes anos.
Mas anteriormente ao Doutorado, eu tinha feito o mestrado aqui mesmo na UFG, entre 1994 e 1996, porque, sendo professor da universidade, a titulação acaba sendo fundamental. E eu precisava do mestrado. E, já que as duas tentativas anteriores não tinham se materializado no título, fui fazer o mestrado na Física Estatística. Por quê? Era o único que havia por aqui e eu não podia pegar licença naquele momento. Então, no mestrado fui trabalhar com o fulereno carbono 70. Conversando com o meu orientador, Nikolai, que é russo, ele me apresentou algumas propostas de trabalho. Bem típico da área dura. Ele disse: “- Eu tenho isso, isso e isso. Quer fazer o quê?” 

Acho que na Educação a gente tem um pouco essa flexibilidade de escutar o que o nosso aluno quer fazer, qual é a questão que está inquietando ele. Lá, não! E então, na hora que ele me apresentou o trabalho sobre Carbono 70, me chamou muito a atenção, porque eu vi nele o olhar da Astrofísica.
Os fulerenos foram descobertos a partir das observações astronômicas. Então eu adorei. Falei: “- Bom, alguma coisa da Astronomia vai sair aí no meio.” E eu fiz essa dissertação. Terminei em dois anos. Foram oito trabalhos publicados na Física Review, na Física Letters, e outras revistas; fui apresentar os resultados em congressos internacionais em São Petersburgo, fui para Oxford. Com a facilidade de produção e publicação nessa área de conhecimento você fica até meio fascinado. Isso foi, mas não era o que eu gostava.
Então, entre 1997 e 1998, eu comecei a rever as coisas. Estive na Espanha, entre janeiro e fevereiro de 1998, no Departamento de Educação da Universidade de Alcalá de Henares, com uma Bolsa Carolina de intercâmbio. Fiquei dois meses. Isso foi o meu primeiro contato, de verdade, com os referenciais teóricos da área de Educação. Não vou falar de Educação em Astronomia. Educação em geral. 

Antes disso, outro fator que mexeu um pouco nessas questões da Educação, foi participar, em setembro de 1992, em Gramado, do Encontro Latino Americano de Ensino de Física, que o professor Marco Antônio Moreira organizou, onde tive um contato com educadores, da área do Ensino de Física, da Espanha, da América Latina. Com isso, eu comecei também a acompanhar um pouco o surgimento, nos anos 90, da área da Educação em Ciências no Brasil. Ela se configura na criação da ABRAPEC , já eu estando na Espanha, no Doutorado, um pouquinho antes. Depois, eu estando lá, é que a área 46 aparece na CAPES . Então, esses fatores foram influenciando e já me direcionando. Pensei: “- Bom, o que eu quero é fazer algo nessa linha.”

Entre 1996 e 1998 comecei a fazer mais leituras dentro da Educação. Não era nem em Educação em Ciências. Então eu comecei a ter referenciais teóricos que podiam me dar uma fundamentação, uma ideia. Não vou dizer que era um projeto, mas era uma ideia para o Doutorado. Então eu decidi ir para a Espanha. Por que para a Espanha? Aí é uma questão familiar. Para alguém me orientar na área da Educação em Astronomia no Brasil, não tinha na área de ensino. Na Espanha também não. Então, eu fui para Valladolid, que era onde minha mãe mora, que ela estava viúva há alguns anos, e foi uma oportunidade de eu ficar fazendo Doutorado em Valladolid, com um professor que é formado em Física e Química, mas lotado na Faculdade de Educação, nas didáticas específicas, na didática das ciências experimentais. 

Ele não era da Astronomia, ele era do ensino, e é uma coisa interessante, que os professores, muitos desses professores que estão na Faculdade de Educação, trabalhando com o ‘ensino de’, nas didáticas específicas, são professores que vêm do Ensino Médio. Eles não são professores da universidade, eminentemente. Eles vêm do Ensino Médio para a universidade e trazem já com eles a experiência do ensinar, da educação básica e é um olhar fantástico. E o Mariano, meu orientador na Espanha, sempre dizia para mim: “- Aqui é o seguinte - você trouxe o corpo todinho da sua tese, está aqui. Você tem o corpo, você já está com ele, agora nós temos que montar um teto para ele. Nós vamos ter que fazer.” 
Eu digo que minha tese vem da prática, do experimental para o teórico, e faz uma retroalimentação a partir dos dados que já estavam obtidos. Durante o período que eu estive na Espanha, no Doutorado, eu vim ao Brasil, tomei alguns dados mais, durante um semestre, para poder fazer o fechamento da tese. Mas, aí, durante a tese, eu fui sem buscar os referenciais da Educação em Ciências e, mais, tentando levar isto para a área da Educação em Astronomia. De que forma, eu podia trabalhar os referenciais de uma área da Educação, próxima, mas que não é, especificamente, a área nossa. A Educação traz das ciências sociais; a Educação em Ciências traz da Educação os seus referenciais e a gente acha que tem ainda que construir esses referenciais com uma fundamentação epistemológica mais sólida. 

Falta deixar bem claro ainda, o que são essas áreas específicas. Nós temos este problema no Brasil, que sempre vêm da Didática Geral. As didáticas específicas, eu gosto de chamá-las de metodologias. Os referenciais teóricos específicos ainda estão meio incipientes. Talvez nisso nós estamos um pouco atrasados com relação a outros países. As áreas específicas de conhecimento, em particular, na Inglaterra, na Espanha, em Portugal, França, há muitos anos estão bem consolidadas. Talvez, no Brasil, a única área que pode falar bem disso é a Educação Matemática. Ela tem uma história bem mais sólida.

Nesse período eu consegui uma licença remunerada, inclusive, da Universidade Católica. Talvez porque, para eles, era muito bom me ter longe. Eu sempre fiquei envolvido também, com o Sindicato de Professores e Associação dos Professores da Universidade. E, por muitas questões, a minha ida, naquele momento, com a reitoria que estava, era muito bom. Era interessante para eles e eu não tive nenhuma dificuldade. Tanto é que, antes, inclusive, de eu pedir a licença de afastamento na Católica, eu já estava sabendo que era só dar entrada que a autorização ia sair, porque era questão pessoal do reitor. Não era um processo como nas Federais, que nós temos toda uma hierarquia. O reitor só faz homologar aquilo que as unidades decidem. Não, lá, não. O reitor era quem decidia, e a reitora já tinha tomado a decisão. Alguns vieram me falar que sabiam que eu já estava indo embora, sem mesmo eu ter pedido a licença.

Então, isso foi bom. Não tive bolsa, pois apesar de ter solicitado ao CNPq, e apesar do parecer favorável do relator, o Comitê não concedeu a bolsa e os argumentos foram de que eu poderia muito bem fazer o Doutorado aqui, no Brasil. Não precisava sair. É discutível. Eu achei bom por um sentido, no aspecto de que você tem o reconhecimento de que aquilo que você está fazendo não é uma burrada. E ele mostrava isso. Mas isso não tem problema! Eu terminei e defendi a tese em março de 2003.

Depois disso, eu voltei para o Brasil, assumi o meu cargo na Católica e na Federal até 2010, quando eu pedi recisão de contrato na Católica e peguei dedicação exclusiva na Federal. Outra coisa que quero citar, e que para mim foi muito importante, foi o retorno do Doutorado. Eu tive que fazer revalidação. Eu fui procurar quem poderia fazer a revalidação de uma tese, que foi toda ela sobre o planetário como uma ferramenta didática no ensino de Astronomia. Eu não via quem e nenhum programa. Eu mandei para Florianópolis e a banca que fez a avaliação da tese foram os professores Demétrio, o Angotti e o Pinho. Eu costumo dizer que para mim foi a melhor coisa que pôde ter acontecido, em termos acadêmicos, de validação do meu trabalho. Porque foi uma arbitragem às cegas, de três respeitáveis nomes na Educação em Ciências brasileira e onde eu, felizmente, recebi grandes elogios. Isso, para mim, é uma coisa que, particularmente, me faz muito bem. Falei: “- Pô, acho que não fiz besteiras.”

Então eu fui avaliado duas vezes: lá e aqui. E a avaliação de lá, é diferente daqui. Lá, o orientador fica fora da banca. Ele fica ali, ao lado, e algumas das avaliações ou das críticas que podem ser feitas, também são feitas a ele. Então, a banca é composta pelos cinco membros, sem o orientador. Isso também dá outro olhar. E, antes dessa apresentação pública, é feita uma avaliação, uma arbitragem às cegas, por três membros, para que o Comitê, o conselho de Doutorado possa liberar a defesa pública. Para isso tem que ter o parecer favorável de, no mínimo, duas pessoas. Então, é um processo um pouco mais amarrado e mais burocrático e com avaliações mais variadas.

Quando relembro minha trajetória, penso que a maior dificuldade que eu tive, acho que é a formação inicial, a minha formação inicial. Eu não fui formado para pensar na educação. Eu acho que eu não tive, na minha formação inicial, nada que me incentivasse. Muito pelo contrário, tudo era denegrindo a imagem dessa função, dessa profissão professor, da educação, como algo importante. No entanto, quando eu entrei no sistema educativo e começo a ver as questões que acontecem, como que é a educação, eu tenho um conflito. Eu era dos professores, inicialmente, que preparava aquelas aulas para chegar ali e “pum, pum, pum”. Eu repetia aquilo que estava nos livros ou o que fosse, porque achava que os conteúdos eram a coisa mais importante que eu podia passar para aquelas pessoas.
Então, para preparar uma aula de duas horas, eu levava oito, dez horas, tranquilamente. Mas era daqueles conteúdos bem... A vida prática foi me mostrando que não, que isso não era o mais importante. Não tinha nenhuma formação na área pedagógica. Nada, nada, nada. Em momento algum, na minha formação inicial, eu vi algo de teorias da aprendizagem, de metodologias de ensino ou que fosse na Psicologia da Educação.

Eu fui tendo que buscar na medida em que eu fui precisando. Então, você pode falar: “- Acabei sendo autodidata sim, não é?” É! Às vezes, a gente aprende muito mais. Mas é preciso, talvez, essa formação inicial, que te favorece e que te induza um pouquinho, a um tipo de conhecimento que vai facilitar no exercício da sua profissão.
Hoje em dia, as maiores dificuldades para alguém que queira trabalhar nessa questão da Educação em Astronomia, é que a formação inicial continua sendo capenga, e na formação dos professores em geral. Mas também é mais difícil na Educação em Astronomia, em particular, do que na formação de professores de Física, de Química, de Biologia, de Matemática. E pior ainda, por quê? Porque os conteúdos específicos dessas áreas são trabalhados, mas os conteúdos específicos de Astronomia estão relegados àquele interesse da população e não na formalização da Educação. Ao falar de Astronomia, todo mundo fica encantado, e os físicos nos institutos adoram falar de Astronomia. Mas essa é uma coisa complicada, porque na hora que eles precisam falar de alguma coisa, a opção é a Astronomia. Mas, na hora de trabalhar na educação dela, não é. 

Acho que não tem conhecimento que interesse mais à sociedade e à população em geral do que aquilo que a Astronomia estuda. E nós estamos nesse processo, de construção de uma identidade de uma área. Nós vimos, há poucos dias, as histórias dos asteroides, dos meteoros e o que é uma coisa e o que é outra. No final do ano passado, teve o “fim do mundo”, o calendário Maia. Falta uma mínima identidade, uma mínima explicação. E tem outras coisas que surgem e crescem tão rapidamente na imprensa, como essas notícias. 

Eu tenho dito muito que a culpa é dos Astrofísicos, para que isso não tenha outro olhar. As pessoas não se preocupam, às vezes, com esse olhar de que a sociedade e a Educação precisam ter esse conhecimento como uma forma deles entenderem até a si próprios. Acho que são questões sociais, culturais, que a gente pode atingir de uma forma muito melhor. Eu tenho afirmado que a Astronomia pode ser o melhor caminho para se alcançar a felicidade e a democracia, porque o conhecimento deixa de ser místico. É fazer com que o conhecimento seja uma coisa natural. E a Educação em Astronomia, permite esse caminho. É possível chegar a isso. Dificuldades? Eu acho que a maior dificuldade é na formação inicial e a formação dos formadores desses professores. Nessa formação, a massa crítica que existe na área ainda é muito pequena e o nosso discurso, dessa meia dúzia, que já está nessa área, ainda não é suficiente. Mas acho que o tempo vai nos permitir construir isso. Eu espero que meus filhos, meus netos possam ser beneficiados.

Por outro lado, quando penso nas recompensas, para mim, são as que vêm no nível pessoal, no nível social também. É aquilo que eu digo: “- Nós não vamos ficar ricos nessa sociedade, sendo professores, mas nós podemos ter uma vida digna.” Mas, a vida digna, para mim, passa muito mais pelas relações interpessoais que a gente acaba construindo. Depois de 33 anos dando aula, trabalhando na Universidade com os alunos, é muito gostoso você ir pela rua e os seus ex-alunos te reconhecerem e te respeitarem e te terem como alguma referência de vida. É muito gostoso você estar aqui e, de repente, receber alunos que passaram em concurso no Instituto Federal ou na Universidade Federal do Amazonas, na Universidade Estadual do Amazonas, como tem agora, e que chega aqui, vem me procurar e dizem: “- Passei no concurso agora. Quero trabalhar com Educação em Astronomia. O que eu faço? Como é que eu faço? Me ajuda.” 

Então, eu acho que, nesse sentido, de terminar uma turma da disciplina do mestrado e, de repente, você chega e ganha uma cesta de presente dos alunos. Para mim, isso é muito importante! Chegar no Instituto de Física, hoje, e ver que tem vários professores, mesmo não estando na Educação em Astronomia, mas que estão lá e que alguns estão lá porque o Juan foi conversar com eles, há vinte anos atrás, há quinze anos atrás, no colégio que eles estavam. Foi bater papo, foi falar de Astronomia, e eles vieram para cá, foram fazer Física. Muitos deles queriam fazer Astrofísica, mas no Instituto, Astronomia é meio tabu. Então eles encontram o espaço em outros caminhos! Não tem problema. Fico feliz! Então, eu acho que essa é a compensação que a gente tem.

Se me perguntar sobre em que me tornei melhor, eu diria que me tornei, a cada dia, mais humano. Cada dia mais! E, para mim, talvez, seja o melhor. E aí a idade ajuda. Não adianta! Eu acho que quando a gente pega aquelas três situações do entendimento de mundo, das coisas, e a gente tem o primeiro nível de entendimento, o da simples informação, de ser capaz de transformar a informação em um conhecimento. O conhecimento começa a resolver, mas eu acho que a gente, com a idade vai chegando naquele terceiro nível de entendimento, que é da sabedoria. E, a sabedoria passa na medida em que você começa a perceber essas outras coisas. Não quero dizer com isso que eu estou me tornando um sábio, NÃO. Vou morrer ignorante. Acho que isso é a maior coisa. Mas eu acho que algumas coisas a gente vai percebendo! E perceber essas questões vai te fazendo estar nas situações e nos espaços diferenciados e perceber o que é que aquelas pessoas estão esperando de você. Às vezes, elas não têm coragem. Mas você já tem a percepção de: “- Ah! Eu sei que... vai por aí, certo? Então você já até se adianta um pouco naquilo. 

É ir a Quirinópolis, como fui 5ª feira da semana passada, para fazer uma fala com alunos da Matemática e da Geografia, uma fala que estava programada entre sete e meia e nove, porque eles moram em cidades vizinhas, e o lugar que tinha sido habilitado para isso, era um lugar onde a expectativa deles era para umas 70 a 80 pessoas. Eram os alunos das duas turmas de calouros. No entanto, tinham 170 cadeiras, e eles tiveram que colocar mais, porque não dava. E nós saímos de lá dez e meia da noite e ninguém se mexeu. Eles ficaram. E fazer o quê? É dar as respostas às ansiedades deles, as perguntas que eles têm para fazer! Você dá a eles pelo menos ou respostas ou formas de que eles sejam capazes de construir suas próprias respostas. É isso que eu tenho tentado fazer. É ver uma criança de quatro anos sair de lá, falando: “- Estrela cadente não existe, não é uma estrela que está caindo!”, entendendo que o que tem ali é um meteoro que está caindo. “- Não! O meteoro... não são estrelas que caem!” Então, isso, para mim, não tem preço e não tem compensação que me paga isso.

Rememorando, não me lembro de momentos ruins (risos). Tem momentos, lógico! Eu acho que a gente acaba sendo eletista, não é? Tem momentos ruins... Meus amigos me dizem que eu tenho uma facilidade muito grande de “mudar o chip”, de pular de uma situação para outra. Eu acho que eu tenho objetivos, vou construindo meus castelos, mas eu não fico remoendo se esses castelos não se viabilizam. Se não dá certo, me pergunto: “- Por que não deu certo?” Eu quero entender, mas não para ficar remoendo, mas para ver de que forma posso evitar esses “não deu certo”, esses obstáculos, para corrigir para outros momentos. Eu parto, vou para outros caminhos. Então, eu acho que tenho feito isso no coletivo. 

Por exemplo, eu tenho um sonho. O projeto de um parque. Dá certo? Bem. Não dá? Não dá! Projeto de fazer o Espaço da Ciência, com dinheiro e tudo. Não deu certo? Também não vou ficar aqui me martirizando. Vou tentar viabilizar o que eu posso fazer agora. Penso: “- Oh! Não dei conta disso. Eu consigo viabilizar isso?” Tem as questões políticas no meio, a gente sabe disso. Então, nisso eu vou convivendo. 

Estamos com um projeto de Observatório na Serra Dourada. Dá certo? Bem. Não dá? Não tem problema. Então, o que eu posso fazer no espaço que disponho? É aquele poder que cada um de nós tem, individualmente, de fazer, de viabilizar. Pude fazer uns “puxadinhos” no planetário, com recursos que o planetário me permite, sem necessidade de ninguém. Então eu vou fazendo! Vou conseguir fazer um espaço museológico em cima do planetário! Então, eu vivo muito disso, de uma construção cotidiana.... 

Então, por isso que eu te falo: tem muitas histórias complicadas, muitas que fazem a gente sofrer, mas que essas fazem a gente também crescer enquanto ser humano e que vão te fazendo relativizar, de alguma forma, e falar: “- Tá! Não vou sofrer antecipadamente pelas coisas.”
Sobre a imagem que tenho de mim mesmo, como um profissional que atua no campo da educação em Astronomia, penso que a gente sempre se cobra, achando que pode fazer mais. Eu tenho isso muito claro. Eu tenho muito claro que eu sempre poderia ter feito algo mais. Mas eu me sinto tranquilo. Tranquilo, em que sentido? Eu acho que eu sou muito provocador, de fazer com que as pessoas que estão próximas de mim sejam capazes de ter autonomia, de crescer. Não quero criar seitas de seguidores, não. Então, não me considero nem melhor nem pior do que ninguém. Nada, mas nada mesmo. Para mim, o aluno, às vezes, quando eu olho para cara dele eu sei se ele está triste, se ele está com algum problema e de ser capaz de chegar nele e perguntar: “- Posso te ajudar em alguma coisa?” Eu já fiz isso muitas vezes, de fechar a porta de minha sala, com o aluno, e ver “- O que está acontecendo?” Em minha sala ou em qualquer outro espaço.

Então, volto: o conhecimento, para mim, é uma forma de você alcançar a autonomia. E essa autonomia só se dá quando o ser humano tem seu coração “todo rasgado”. Eu costumo brincar com isso. O coração para estar “todo rasgado”, com “arranhões” para todo lado é sinal de que ele viveu intensamente as coisas. Se ele tiver um coração lisinho, bonitinho, é porque não sofreu nada. E o sofrimento faz parte da vida! Agora, é saber assimilar esse sofrimento. Eu já tive muito? Tenho! Tenho meus problemas de saúde, pessoal, cuido deles, convivo com eles, faço aquilo que é possível, tento melhorar. E cada dia mais tem isso. Talvez, se você me perguntasse isso há 30 anos, eu diria que a dinamicidade da vida está nisso.

Sobre momentos marcantes nas atividades profissionais, posso dizer que teve um que me chamou muito a atenção. Foi um fato em março de 2004. A passagem, a aproximação de Vênus. Eu tinha acabado de assumir a direção do planetário. Estávamos só três pessoas: o Cláudio, o Isaúl e eu com um telescópio “vagabundo”. E, o Juan faz a loucura de abrir o planetário para observação astronômica da aproximação de Vênus. Então, chamamos a imprensa e a imprensa veio! Eu sei que entre oito horas da noite e uma hora da manhã, nós atendemos 1.480 pessoas. E com um telescópio só, e para piorar o motor de acompanhamento não estava funcionando! E a minha decepção de olhar para Vênus e ver não mais do que um pontinho. Então, o que eu fiz? Preparei a cúpula do planetário com um slide de Vênus bonito e todas essas 1.480 pessoas passaram por dentro da cúpula, naquela noite. O Cláudio me xingou e o Isaúl, a mesma coisa, dizendo: “- Você não sabe o que está fazendo!” Eu falei: “- É!” Realmente não sabia quando eu pensei, mas são momentos que me marcaram.
Outro momento foi na Católica com a disciplina Astronomia que era para todos os cursos. Então tinha como alunos, o pai e um filho, que faziam Administração de Empresas, e a disciplina comigo. Um dia nós fomos para o observatório e eles foram. Aí, eles me pediram para ver se podia levar a mãe, a esposa, e uma irmã. Falei: “- É claro que podem ir!” Porque isso era uma das coisas que acontecia nas minhas aulas na graduação, de repente, quando vinha para o planetário, eles falavam: “- Eu posso levar minha mãe? Posso levar meu pai?” E eu dizia: “- Pode! Leva quem você quiser lá para dentro. Não tem problema na cúpula.” E chegar lá no planetário, lá no observatório, eles olharem para a Lua, e você vê eles começarem a chorar, então nesses momentos você fala: “- Vale muito a pena! Vale muito a pena a gente fazer essas coisas!”. 

Ou momentos em que ao chegar as crianças no planetário, de repente, começam a ter medo lá dentro da cúpula e eu deitar no chão com elas ao meu lado, me abraçarem e ficarem ali, a sessão toda assistindo, e sair de lá contando as histórias que tinham visto.
Então, esses pequenos momentos são os que marcam a vida da gente e são os que alimentam a alma, se a gente pode dizer assim. É o alimento da alma, usando a expressão, que não sei o que quer dizer muito não, pela minha formação. Mas usando algo que é comum para mim, isso faz a gente viver melhor, se sentir melhor, e eu me sinto bem com isso.

Se eu pensar naquilo que poderia mudar em minha trajetória, caso fosse possível voltar, diria que nada! Nada, porque voltar com a cabeça de hoje, aí, não tinha graça. Não ia ter graça essas coisas. A graça é a gente apanhar. Eu manteria tudo. Se eu pudesse fazer, talvez, até com mais intensidade o que eu fiz, mas de fazer diferente, não.

Por fim, gostaria de dizer que quando eu terminei a minha tese, já há 10 anos, eu cutuquei nessa linha da busca de referenciais para a Educação em Astronomia, da necessidade da gente ter um referencial para poder trabalhar o ensino de Astronomia. Não criar disciplinas por aí. Não é isso! Mas é ver a importância que ela tem socialmente e desse momento é de que nós sejamos capazes, não é por mim não, é para que o Brasil, para que a gente possa ter algo, um grupo, uma massa crítica capaz de perceber essas necessidades.

É um grupo que está nascendo, está começando, e que a gente possa, de repente, falar: “- Pô, nós não estamos sozinhos. Deixa eu ver quem são? Ah! Tem o Michel, lá em Belém; o Jafelice em Natal, o Germano Afonso está lá no Amazonas, agora, a Cris está em São Paulo, o Bisch está em Vitória, o Longhini está em Uberlândia, o Langhi está em Bauru; a Dora, no Rio... E que que a gente possa ter o momento onde falar: “- Pô, espera lá! Olha! Nós temos muita gente, nós temos muita gente que está pensando nisso e não é egoisticamente não; é coletivamente, é socialmente, e de poder fazer algo para a sociedade!” Nós estamos a serviço do povo. E ninguém melhor do que ele para ter retorno daquilo que a gente está fazendo.

Para mim, isso é um compromisso social. Eu recebo um salário que vem de todo mundo, dos impostos que as pessoas pagam. Então, a primeira pessoa que eu tenho que dar retorno é para essas pessoas. É nesse sentido que eu me preocupo. Em atender esse público que chega aqui, agora, e atender bem e acabar a sessão, conversar com eles, dar a eles todo o espaço para poderem falar das suas angústias, ver se eu posso ajudar. Então, eu acho que é nesse sentido, essa é a minha aspiração. De ver, daqui a 10 anos, que nós temos um grupo não de 10, 15 pessoas, mas que tem “trocentas” pessoas que estão pensando nisso aí. Em Educação em Astronomia. Com isso, eu ficaria feliz da vida, muito feliz!
Entrevista concedida em nov/2013.


Da Terra Para As Estrelas, por Otávio J. Ângelo.

Fonte:
- Jornal O Popular
- Jornal UFG
- UFG

 - ABP
A morte de Juan Barrio, presidente da Associação Brasileira de Planetários A morte de Juan Barrio, presidente da Associação Brasileira de Planetários Reviewed by OTÁVIO JARDIM ÂNGELO on 07:07 Rating: 5

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